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segunda-feira, 24 de julho de 2023

Ainda Vasco Rodrigues e a freguesia de S. João dos Caldeireiros

Na sequência da publicação Vasco Rodrigues… vinte anos!, após consulta d’ As Memórias Paroquiais de 1758 do Concelho de Mértola1, gentilmente cedido pela senhora Presidente da Junta de Freguesia da São João dos Caldeireiros, cabe aqui fazer um pouco de história e caracterização desta freguesia, no século XVIII.


Para “promover um melhor conhecimento da realidade do país ao nível administrativo e judicial, histórico, eclesiástico, demográfico, económico, orográfico e hidrográfico”, entre 1721 e 1758, promoveram-se quatro inquéritos envolvendo a globalidade das paróquias do Reino.


Embora se desconheça o prazo em que o inquérito de 1758 (enviado aos párocos) foi concluído, a maioria das respostas datam dos primeiros meses do ano. Os dados do concelho de Mértola são relativos às respostas a este inquérito. Os impressos do Inquérito foram remetidos pelo Arcebispo de Évora ao Vigário da Vara de Mértola e feitos chegar aos diferentes párocos do concelho. O prazo para as respostas serem remetidas foi, para a freguesia de S. João Batista, 1 de junho de 1758.


(S. João Batista, atualmente S. João dos Caldeireiros; a designação toponímica da atual freguesia generalizou-se apenas a partir do início do século XIX; doravante, passaremos a designá-la pela toponímia atual)


A freguesia de S. João dos Caldeireiros tinha, então, dezoito lugares, a saber: Vasco Roiz, Ledo, Pero da Vinha, Casa Velha, Corte do Pão e Água, Álvares, Touril, Romeiras, Camarinhas, Palma, Penilhos, Tacões, Corvo, Martianes, Quintão, Herdade de Santa Maria, Simões, Costa, com uma população total de 530 pessoas maiores de sete anos.


(Vasco Roiz, atualmente Vasco Rodrigues)

As paróquias do concelho de Mértola em meados do século XVIII

A aldeia de S. João dos Caldeireiros distava dezanove léguas de Évora (atualmente 130 km), capital do arcebispado, e trinta léguas de Lisboa (atualmente 221 km), capital do Reino.


(légua era a denominação de várias unidades de medidas de itinerários de comprimentos longos, utilizadas em Portugal, Brasil e outros países, até à introdução do sistema métrico; as várias unidades com esta denominação tinham valores que variavam entre 2 e 7 km)


O pároco recebia dos fregueses três molhos de trigo e vinte alqueires de cevada.


(por semana ou por mês?)


(alqueire designava originalmente uma das bolsas ou cestas de carga que se colocavam, atadas, sobre o dorso e pendente para ambos os lados dos animais usados para transporte de carga)


As serras de Pero da Vinha, Álvares e Caselas eram muito agrestes e secas, sem cursos de água e com temperaturas muito altas. A ribeira de Oeiras, que desagua no Guadiana, estava seca no Verão, conservando apenas algumas barragens.


Em relação às atividades económicas e recursos naturais, não havia criação de gado, verificando-se a caça a lobos, raposas, gatos monteses, perdizes e coelhos. Na agricultura, predominava o trigo, a cevada, o centeio e milho; nos frutos, os melões. Pesca de barbos, bogas, bordados a pardelhas. Existência de muitos moinhos para o fabrico de pão.


Relativamente ao terramoto de 1755, diz-se que a freguesia apenas registou danos na abóbada da igreja, que logo foram reparados.


De acordo com os censos de 2021, a freguesia tem atualmente 442 habitantes, menos 88 que em 1758. Perdizes e coelhos são ainda abundantes, suportando a atividade de caça desportiva, relevante na região. No Verão, as altas temperaturas e a falta de água continuam a estar presentes.


Observatório do Lince-Ibérico

O Centro de Interpretação e Observação do Lince-Ibérico, que fica situado em S. João dos Caldeireiros, é uma iniciativa que permite descobrir, conhecer melhor e ajudar a preservar esta espécie, que tem vindo a ser salva do perigo de extinção em território português. É um espaço aberto 24 horas por dia, que tem como propósito acolher visitantes num espaço sombreado, facultando informações sobre este ameaçado felino e o seu habitat, através de conteúdos expostos em painéis informativos. Deste local é possível observar o cercado onde, em 2014, no vale do Guadiana, foi libertado o 1º casal de linces-ibéricos no âmbito do Programa de Conservação Ibérico.


S. João dos Caldeireiros

Como disse, ando por estas bandas há vinte anos, S. João dos Caldeireiros era uma aldeia sem esgotos, de caminhos de terra batida, esburacados, com dificultado trânsito de peões, principalmente no Inverno. Em 2017, com obras de saneamento e arruamentos, fruto do bom trabalho das autarquias, é um local aprazível, bem cuidado, com ruas alcatroadas, sinalização vertical e horizontal para veículos, passadeiras, espaços verdes e de diversão para os menores. Merece ainda relevo o bom estado de conservação das habitações, fruto do cuidado dos residentes. Qualidade!


Vista noturna de Vasco Rodrigues

As autarquias locais, conquista de Abril instituída pelo artigo 235° da Constituição da República Portuguesa de 1976, “visam a prossecução de interesses próprios das populações respetivas”, e tiveram, de facto, um papel fundamental na melhoria das condições de vida das populações. Embora tardio relativamente a esta data, este é um bom exemplo, entre muitos.



1: Boiça, Joaquim F. e Barros, Maria de Fátima R., As Terras, As Serras, Os Rios - As Memórias Paroquiais de 1758 do Concelho de Mértola, Campo Arqueológico de Mértola, 1995


domingo, 2 de julho de 2023

Um dia diferente

Os dias correm, correm muito depressa. Quando damos por isso, já passou. Já passou um dia, já passou uma semana, já passou um ano, já passaram dez anos, já passaram vinte anos... na minha última publicação (Vasco Rodrigues... vinte anos!), falei de acontecimentos de há vinte anos. Parece que foi ontem!

Nem sempre foi assim, quando somos jovens o tempo custa a passar, queremos acelerar, temos pressa. Por vezes ponho-me a pensar que, de facto, o tempo hoje passa mais depressa, que não é apenas a nossa perceção.

(Albert Einstein, na sua Teoria da Relatividade, introduziu o conceito espaço-tempo como um conjunto, como uma única variedade de quatro dimensões, tratando o tempo como uma dimensão adicional às três dimensões espaciais, inseparável destas, já que a passagem do tempo - velocidade do objeto -  não é sempre igual, depende da velocidade do observador. Einstein contraria, assim, a mecânica clássica de Isaac Newton, em que o tempo é considerado uma unidade de medida universal. No nosso dia a dia, é esta ainda a idéia que prevalece. Isto para dizer que, tal como Einstein contrariou a teoria de Newton, quem sabe, alguém, um dia, me venha a dar razão! Quem sabe)


Para além dos dias ditos comuns, rotineiros, há dias que, sem que na altura nos seja percetível, serão insequecíveis. Ficam marcados na nossa história.


No âmbito da Avaliação de Desempenho Docente, a Marta, Diretora do Cenforma - Centro de Formação de Professores de Montijo e Alcochete, nomeou-me avaliador externo de duas colegas docentes da Escola Básica 2,3 de Pegões, escola sede do Agrupamento de Escolas de Pegões, Canha e Sto. Isidro.

(recordando, fui o primeiro diretor do Cenforma, entre 1993 e 1995, a minha colega e amiga Maria Aurélia Marcelino foi a autora do seu primeiro logótipo, escolhido por concurso; saudades da Maria Aurélia)

(Foi recentemente nomeado o novo diretor do Cenforma, Custódio Lagartixa, colega e amigo a quem desejo as maiores felicidades e sucessos)

24 de fevereiro de 2022, 06H30M, levantar. Acordar já foi há uma hora atrás, como sempre acontece quando saio da rotina. Pequeno-almoço e a caminho de Pegões. Levei o Type R.

(o Type R é um Honda Civic, uma vaidosice minha. Um carro com performences a mais para a minha idade, mas não para a idade do Filipe. Uma sociedade familiar)

7H45M, Escola Básica 2,3 de Pegões. Há muito que não visitava esta escola. Boas recordações.

(a Escola Básica 2,3 de Pegões foi inaugurada em 1997, durante o exercício das minhas funções de Coordenador do Centro da Área Educativa da Península de Setúbal, tendo eu indicado o meu colega e amigo Flamino Viola para Presidente da Comissão Instaladora; o Flamino levou consigo outro colega e amigo, o Carlos Romão, e a colega Fátima Vilela, com quem tenho menos contactos)

Recebido pela Diretora Mavilde Albino, fui assistir à primeira aula da colega Paula. 8º ano de Ciências Naturais. Recursos geológicos - proteção e conservação da natureza - foi o tema tratado, com incidência especial no impacte ambiental das pedreiras. Uma boa aula.

10H:00M, no Type R, o iogurte do meio da manhã. Ligo ao Filipe.

-- Tudo bem?
-- O Rafael está com Covid. Está aqui deitado no sofá. Agora devemos ter todos.
-- Pois, provavelmente. Eu, até ver, não tenho sintomas nenhuns.
-- Aqui em casa, por enquanto, é só ele, mas temos de ir fazer teste. Não sei se já sabes, mas a Rússia invadiu a Ucrânia, estão em guerra.
-- Não sabia! Eles andavam a ameaçar.
(Às primeiras horas de ontem, o poderio militar russo foi projectado nas três frentes onde, durante meses, se acumularam mais de 150 mil soldados, equipamento, artilharia e material logístico. Através do Donbass, no Leste, em apoio às forças separatistas, pelo norte, por via da Bielorrússia, e pelo sul, a partir da Crimeia, a península anexada por Moscovo em 2014. A ofensiva foi lançada por terra, mar e ar. Público, 25.02.2022)
E já lá vão dezasseis meses! O impensável aconteceu! A guerra regressou à Europa, numa das maiores ofensivas no continente, desde a II Guerra Mundial! Pela mão de Putin, que encarna a vingança daqueles que não apoiaram a queda da URSS e a sua metamorfose em democracia.
(Kiev viveu mais uma noite agitada, com bombardeamentos russos sobre a capital a fazerem disparar as sirenes toda a noite. Os estilhaços de um ataque com drone provocaram um ferido, mas todas as ameças foram destruídas pelas antiaéreas ucranianas, dizem as autoridades locais. Volodymyr Zelensky disse aos jornalistas que pelo menos 21 mil soldados do Grupo Wagner já perderam a vida no leste da Ucrânia, número impossível de confirmar. Certo é que o império de propaganda do chefe dos mercenários, Yevgeny Prigozhin, vai encerrar, mais um castigo pela tentativa falhada de motim do passado dia 24 de junho. Expresso on-line, 02.07.2023)
11H35M, volto à mesma sala de aula, para obervação da aula da Lídia. 8º ano de Ciências Naturais. Ecossistemas - fluxos de energia e ciclos de matéria, é o tema. Outra boa aula.

13H:20M, volto ao Type R para regressar ao Montijo. Era o fim do turno da manhã, alunos de saída, outros a entrar. Muitos em volta do carro. Pedi licença para entrar.

-- Grande máquina! O carro é seu, professor?
-- É verdade.
-- Fixe, professor. Grande máquina!

Era claro que, para além de apreciarem o Type R, queriam dizer que eu já não tinha idade para aquilo. Devia ter juízo. Concordo.

Chegado a casa, o neto Rafael prostrado no sofá. De tarde, os pais foram fazer o teste ao SARS Cov-2 - positivo. Eu e a minha mulher fizemos no dia seguinte, de manhã - positivo. Todos de quarentena, durante sete dias. No fim dos sete dias, foi a vez da neta Filipa. Ficámos todos bem. Pensamos nós.

O regresso à escola de Pegões. A guerra na Europa. Covid-19. Um dia diferente. De todos os dias da nossa vida, só alguns ficam a fazer parte da nossa história.

Como diz Saramago em Cadernos de Lanzarote - Diário II,
Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir.

terça-feira, 20 de junho de 2023

A Idade do Fogo

O fogo é hoje uma preocupação. Lembramo-nos mais dele no Verão, quando o risco é maior e infelizmente pouco, no Outono, Inverno e Primavera, tempo de prevenção. Mas nem sempre foi assim.

Stephen J. Pyne, em Piroceno,

(edição de Livros Zigurate, editora muito recente que saúdo, pela qualidade dos seus 12 livros já editados)

identifica três fogos: o fogo-primeiro, o fogo da natureza, surgido há cerca de 420 milhões de anos, após surgirem as primeiras plantas terrestres; o fogo-segundo, ateado e alimentado por humanos, terá surgido após a última era glacial, há cerca de 2,5 milhões de anos; o fogo-terceiro, atual e praticamente sem limitações, que afeta o clima, os ecossistemas e até a anterior (boa) relação do Homem com o fogo.

De facto, o fogo-segundo é o resultado da domesticação do fogo pelo Homem, colocando-o ao seu serviço, na cozedura de alimentos, na iluminação e no aquecimento. Não mais se separaram, passando o fogo a ser imprescindível para a vida humana.

O fogo-terceiro desagregou os humanos do fogo, passando a ser possível a vida dos primeiros sem o segundo, sendo que este deixou de se desenvolver sem o primeiro. Até certa altura, o fogo-terceiro era uma ferramenta de produção de energia bruta e havia como que uma convivência entre os três fogos. Até ao início do último século.

A auto-regulação deste sistema a três vai dando lugar a algum domínio do fogo, que atinge um pico de difícil retrocesso, com predominância das queimadas descontroladas relativamente às que eram feitas sob controlo, demasiada combustão e, progressivamente, num sistema de feedback positivo, com a ajuda das alterações climáticas com aquecimento global, passando de fogo cooperante a fogo violento e agressivo.

Inconscientemente, criámos a Idade do Fogo!

Enquanto o fogo-segundo dominou o fogo-primeiro, o fogo-terceiro, de exclusiva obra humana, foi o motor da transformação da Terra, a fonte de energia responsável pelo Antropoceno. Imparável! Evitar alguns fogos na agricultura pode resultar na utilização de produtos químicos poluentes e bastante prejudiciais à saúde, nas áreas naturais ou selvagens pode favorecer queimadas prejudiciais e a utilização excessiva de combustíveis fósseis favorece os incêndios florestais.

Em Portugal, a sul do Tejo, pese embora o contributo do Homem e dos herbívoros, mantendo a vegetação mais rasteira e pouco arbustiva, as condições meteorológicas são favoráveis a grandes incêndios; a norte, mais acidentado e com menos gestão de vegetação, em dias mais quentes, acontece o fogo descontrolado, muitas vezes por mão criminosa ou negligência humana.

As previsões dizem que, no pior cenário, devem arder em Portugal continental cerca de 227 mil hectares, menos de metade da área ardida em 2017; na melhor hipótese, a área ardida poderá ficar nos 20 mil hectares, seis vezes inferior à média da década de 2012-2021.

A Força Aérea prevê ter disponíveis 72 aeronaves, equipas multidisciplinares especializadas para dar melhor apoio à decisão mais próxima do palco de operações e tornar mais eficiente o ataque inicial, atualização dos manuais das Forças Armadas que pilotam meios aéreos e formação sobre o comportamento do fogo, para evitar que a sua aproximação incremente a combustão. O maior orçamento de sempre - 52,7 milhões de euros!

Por muitos milhões que se gastem no combate, este é sempre desigual, a favor do fogo. É preciso garantir que não estamos demasiado focados no combate, mas trazer outros atores que possam ajudar a fortalecer o lado da prevenção.

Os aborígenes, em paisagens naturalmente propensas a incêndios, ateiam os seus fogos antes do aparecimento dos relâmpagos. À medida que os incêndios são mais frequentes, tornam-se mais fáceis de controlar. É isto, temos de voltar a usar o fogo como ferramenta, temos de incrementar o fogo-segundo, adaptado aos nossos tempos. Temos de voltar a ter uma boa relação com o fogo.

As alterações climáticas estão a mudar as projeções e avaliações de risco de incêndio florestal, aumentando-as três a quatro vezes mais, invadindo zonas que, normalmente, não eram afetadas. O problema é que as pessoas têm dificuldade em aceitar, em acreditar, e o grande desafio é fazer acreditar e mobilizar as populações para as medidas preventivas que devem ser adoptadas. Precisamos de investir mais na prevenção e incluir e usar o conhecimento das populações.

Stephen Pyne refere quatro categorias de estratégias para se viver com o fogo: (i) deixar o fogo a cargo da natureza, (ii) substituir o fogo selvagem por fogo controlado, (iii) alterar o caráter do ambiente do fogo e (iv) excluir o fogo. Todas elas corretas e, muitas vezes, em conjunto, em diferentes proporções.

Um dos paradoxos referidos por Pyne é o facto de "à medida que queimamos combustível fóssil, temos de fazer arder paisagens vivas. Temos um défice de fogo. Precisamos de tornar os aceiros mais resistentes face ao que se aproxima - e o fogo pode ser a forma mais segura de o conseguir."

Como diz Pyne, "o fogo é a síntese do contexto", e Tiago M. Oliveira (Presidente do Conselho Diretivo da Agência para a Gestão Integrada do Fogo Rural), no prefácio de Piroceno, "só conseguimos mudar a magnitude com que ele se expressa, se alterarmos antecipadamente o seu contexto, isto é, a vegetação suscetível de arder.".

(Tiago M. Oliveira referiu na apresentação de Piroceno, em 13.05.2023, que, deste facto, ainda não conseguiu convencer o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Espero que não se convença tarde demais)

Paradoxalmente, precisamos de mais fogo para termos menos incêndios.

Referência bibliográfica: Stephen J. Pyne, Piroceno, Livros Zigurate, 2023

terça-feira, 16 de maio de 2023

O Futuro tem Mudança

Realizou-se, ontem, no Canto do Tejo Café, em Montijo, a apresentação do livro da Dra. Maria Amélia Antunes, O Futuro Tem Mudança. Com a sala cheia, a mesa contou com com a presença do Dr. Batista Lopes, responsável pela Âncora Editora, da autora e da Doutora Cândida Almeida, que fez a apresentação da obra.

Com excelentes intervenções e toda a atenção dos muitos presentes, o obra apresentada é uma compilação de textos publicados pela autora na imprensa local, regional e nacional e ainda na Revista Municipal da cidade de Montijo, entre 1998 e 2022. Entre outros cargos, a Dra  Amélia Antunes foi Presidente da Câmara Municipal de Montijo, e é Comendadora da Ordem de Mérito, condecorada pelo Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, em 2015.

Os textos revelam reflexões, opiniões, propostas que, ao longo dos anos, consubstanciam o seu percurso político. Uma lição de ética e qualidade, ao serviço da região de Setúbal e da cidade de Montijo, em particular. Mas também do país. Recordo que, ainda que presentemente afastada da atividade política ativa, na qualidade de consultora jurídica, teve um papel de grande relevância na elaboração do estudo que esteve na base da criação das NUTS II e III da Península de Setúbal, que permitirão a atribuição de significativos fundos europeus, promotores do desenvolvimento que a nossa região muito necessita.

O livro vale a pena ser lido, também pela atualidade de alguns dos textos, mesmo passados já bons anos. A título de exemplo, transcrevo duas passagens:

Nos últimos anos, com o aumento das desigualdades sociais, do desemprego, da fome, com a tomada de consciência generalizada para os problemas globais, como os recursos energéticos, as alterações climáticas a multiculturalidade, a igualdade de direitos, os partidos políticos não conseguiram intervir por forma a dar resposta para a resolução dos principais problemas que afetam as pessoas, aparecendo hoje, como instituições fragilizadas, aos olhos dos cidadãos. É um facto iniludível que os partidos não conseguem mobilizar os cidadãos em geral para as suas causas e propostas. A crescente abstenção nos sucessivos atos eleitorais é disso prova bastante, sendo hoje a doença grave da democracia, mas o desinteresse não se fica por aqui. As associações da sociedade civil deixaram de ter a relevância de outrora e autonomia para cumprir o seu papel de agentes sociais, culturais, desportivos e recreativos, não conseguindo a participação generalizada dos seus associados ou angariar novos aderentes. Numa palavra, deixaram de corresponder aos interesses dos seus associados em geral.” Publicado em Rostos de 19.07.2014

Hoje, os cidadãos não participam porque não se identificam com a falta de verdade e transparência, não se identificam porque não confiam nas instituições e nos seus representantes, não se identificam porque sentem o afastamento dos seus representantes e que estes não prestam contas. Não se identificam porque sentem que são usados para outros fins, são enganados, são depois descartáveis; não se identificam porque as suas posições, as suas propostas não são levadas em conta, não se identificam porque percebem que não são os seus interesses que estão a ser defendidos.” Publicado no Diário da Região de 01.04.2016

2014 e 2016!

Parabéns, Dra. Amélia Antunes!

O FUTURO tem MUDANÇA!

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Transparência, transparência, transparência! Verdade, verdade, verdade!

Num tempo em que o PS e o Governo são bombos da festa (muito por culpa própria, claro), achei importante partilhar convosco algumas passagens da entrevista de Jorge Seguro Sanches, ex-presidente da CPI à TAP, publicada no Expresso de hoje. JSS saiu da presidência da CPI por sentir que o seu caráter foi atacado.

Diz ele que “numa CPI, os deputados estão lá não representando os respetivos partidos, mas representando-se a si próprios. Nós ali não estamos para responder aos diretórios partidários. Nós estamos ali para responder exatamente no mandato direto com o povo. E eu senti que isto não estava a conseguir funcionar desta forma. […] Os diretórios partidários têm de perceber que as comissões de inquérito não funcionam para cumprir ordens dos partidos. Os deputados estão lá para apurar a verdade, para fazer um relatório e, com isso, dar um contributo melhor para o país.

Sobre se é normal a realização de reuniões de preparação de uma audição, disse que “não, o que eu acho é que, acima de tudo, devem ser transparentes, porque se houver transparência a normalidade é aferida logo pelos outros, se não for pelo próprio.

Sobre uma reunião preparatória um dia antes da audição, “não, não, não, isso não faço. Aquilo que melhor defende os deputados é a transparência. Não só os deputados, mas quem esteja na vida política. Devemos ter [na AR], à semelhança do que acontece no Parlamento Europeu (PE) e noutros parlamentos, um registo de todas as reuniões dos seus deputados. […] Acho que estas reuniões e outras devem ser registadas num site, como acontece no PE.

Sobre se faz sentido o Ministro Galamba falar com deputados PS para preparar a sua audição na CPI, disse que “é evidente que não”.

Muito bem! Tudo muito claro, como sempre deveria ser. Que o desempenho dos senhores deputados aconteça no estrito rigor das suas competências e deveres.

Verdade, verdade, verdade! Transparência, transparência, transparência!

PS - Não resisto a transcrever uma outra passagem que li no Expresso de hoje: “ Face à " desgovernação socialista", seria normal dizer-se que "o líder da oposição vai ser primeiro-ministro um dia, só não se sabe quando", mas, segundo uma fonte do PSD, o que se ouve cada vez mais é que "o líder da oposição vai cair, só não se sabe quando”.”. Achei engraçado. Aqui fica.

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Pela democracia e bons resultados... para todos.

O Presidente Marcelo decidiu-se pela estabilidade, pelo equilíbrio, para evitar  um "agravamento de fraquezas da democracia".

Apesar de todos os casos, com um Governo de maioria absoluta com pouco mais de um ano de mandato, sem alternativa visível e conhecendo o Presidente Marcelo, não poderíamos esperar, para já, outra decisão.

O alvo principal foi o Ministro Galamba, que o PR não conseguiu despedir (como já aconteceu a outros). A crítica não poderia ser mais feroz, deixando Galamba em maus lençóis, com tolerância zero.

De facto, Galamba terá sido a grande via para atingir o Primeiro Ministro que, desta feita, frontalmente, o contrariou.

Ao fragilizado Ministro que, na avaliação do jornalista Ricardo Costa, será inteligente e competente mas impulsivo e instável, ao Ministro, dizia, cabe demonstrar essas virtudes e moderar os defeitos. Com a avaliação de Marcelo, terá muitos valores para subir.

O Primeiro Ministro que, como vem sendo hábito, contrariou tudo e todos, deverá evitar mais casos, chegando-lhe o caso TAP, onde ainda haverá muito para gerir, e esperar pela melhor oportunidade (que deverá ser a que menos esperamos) para a grande remodelação, que poderá permitir (ou não) a conclusão do mandato. Se for essa a sua pretensão.

Ao Presidente Marcelo, que intervir e falar mais será impossível, resta-lhe, como prometeu "estar mais atento", trocando o sinal das suas avaliações.

Que prevaleça a democracia e que os recentes bons sinais da economia cheguem a todos.

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