Na sequência da publicação Vasco Rodrigues… vinte anos!, após consulta d’ As Memórias Paroquiais de 1758 do Concelho de Mértola1, gentilmente cedido pela senhora Presidente da Junta de Freguesia da São João dos Caldeireiros, cabe aqui fazer um pouco de história e caracterização desta freguesia, no século XVIII.
Para “promover um melhor conhecimento da realidade do país ao nível administrativo e judicial, histórico, eclesiástico, demográfico, económico, orográfico e hidrográfico”, entre 1721 e 1758, promoveram-se quatro inquéritos envolvendo a globalidade das paróquias do Reino.
Embora se desconheça o prazo em que o inquérito de 1758 (enviado aos párocos) foi concluído, a maioria das respostas datam dos primeiros meses do ano. Os dados do concelho de Mértola são relativos às respostas a este inquérito. Os impressos do Inquérito foram remetidos pelo Arcebispo de Évora ao Vigário da Vara de Mértola e feitos chegar aos diferentes párocos do concelho. O prazo para as respostas serem remetidas foi, para a freguesia de S. João Batista, 1 de junho de 1758.
(S. João Batista, atualmente S. João dos Caldeireiros; a designação toponímica da atual freguesia generalizou-se apenas a partir do início do século XIX; doravante, passaremos a designá-la pela toponímia atual)
A freguesia de S. João dos Caldeireiros tinha, então, dezoito lugares, a saber: Vasco Roiz, Ledo, Pero da Vinha, Casa Velha, Corte do Pão e Água, Álvares, Touril, Romeiras, Camarinhas, Palma, Penilhos, Tacões, Corvo, Martianes, Quintão, Herdade de Santa Maria, Simões, Costa, com uma população total de 530 pessoas maiores de sete anos.
(Vasco Roiz, atualmente Vasco Rodrigues)
A aldeia de S. João dos Caldeireiros distava dezanove léguas de Évora (atualmente 130 km), capital do arcebispado, e trinta léguas de Lisboa (atualmente 221 km), capital do Reino.
(légua era a denominação de várias unidades de medidas de itinerários de comprimentos longos, utilizadas em Portugal, Brasil e outros países, até à introdução do sistema métrico; as várias unidades com esta denominação tinham valores que variavam entre 2 e 7 km)
O pároco recebia dos fregueses três molhos de trigo e vinte alqueires de cevada.
(por semana ou por mês?)
(alqueire designava originalmente uma das bolsas ou cestas de carga que se colocavam, atadas, sobre o dorso e pendente para ambos os lados dos animais usados para transporte de carga)
As serras de Pero da Vinha, Álvares e Caselas eram muito agrestes e secas, sem cursos de água e com temperaturas muito altas. A ribeira de Oeiras, que desagua no Guadiana, estava seca no Verão, conservando apenas algumas barragens.
Em relação às atividades económicas e recursos naturais, não havia criação de gado, verificando-se a caça a lobos, raposas, gatos monteses, perdizes e coelhos. Na agricultura, predominava o trigo, a cevada, o centeio e milho; nos frutos, os melões. Pesca de barbos, bogas, bordados a pardelhas. Existência de muitos moinhos para o fabrico de pão.
Relativamente ao terramoto de 1755, diz-se que a freguesia apenas registou danos na abóbada da igreja, que logo foram reparados.
De acordo com os censos de 2021, a freguesia tem atualmente 442 habitantes, menos 88 que em 1758. Perdizes e coelhos são ainda abundantes, suportando a atividade de caça desportiva, relevante na região. No Verão, as altas temperaturas e a falta de água continuam a estar presentes.
O Centro de Interpretação e Observação do Lince-Ibérico, que fica situado em S. João dos Caldeireiros, é uma iniciativa que permite descobrir, conhecer melhor e ajudar a preservar esta espécie, que tem vindo a ser salva do perigo de extinção em território português. É um espaço aberto 24 horas por dia, que tem como propósito acolher visitantes num espaço sombreado, facultando informações sobre este ameaçado felino e o seu habitat, através de conteúdos expostos em painéis informativos. Deste local é possível observar o cercado onde, em 2014, no vale do Guadiana, foi libertado o 1º casal de linces-ibéricos no âmbito do Programa de Conservação Ibérico.
Como disse, ando por estas bandas há vinte anos, S. João dos Caldeireiros era uma aldeia sem esgotos, de caminhos de terra batida, esburacados, com dificultado trânsito de peões, principalmente no Inverno. Em 2017, com obras de saneamento e arruamentos, fruto do bom trabalho das autarquias, é um local aprazível, bem cuidado, com ruas alcatroadas, sinalização vertical e horizontal para veículos, passadeiras, espaços verdes e de diversão para os menores. Merece ainda relevo o bom estado de conservação das habitações, fruto do cuidado dos residentes. Qualidade!
As autarquias locais, conquista de Abril instituída pelo artigo 235° da Constituição da República Portuguesa de 1976, “visam a prossecução de interesses próprios das populações respetivas”, e tiveram, de facto, um papel fundamental na melhoria das condições de vida das populações. Embora tardio relativamente a esta data, este é um bom exemplo, entre muitos.
1: Boiça, Joaquim F. e Barros, Maria de Fátima R., As Terras, As Serras, Os Rios - As Memórias Paroquiais de 1758 do Concelho de Mértola, Campo Arqueológico de Mértola, 1995















