O fogo é hoje uma preocupação. Lembramo-nos mais dele no Verão, quando o risco é maior e infelizmente pouco, no Outono, Inverno e Primavera, tempo de prevenção. Mas nem sempre foi assim.
Stephen J. Pyne, em Piroceno,
(edição de Livros Zigurate, editora muito recente que saúdo, pela qualidade dos seus 12 livros já editados)
identifica três fogos: o fogo-primeiro, o fogo da natureza, surgido há cerca de 420 milhões de anos, após surgirem as primeiras plantas terrestres; o fogo-segundo, ateado e alimentado por humanos, terá surgido após a última era glacial, há cerca de 2,5 milhões de anos; o fogo-terceiro, atual e praticamente sem limitações, que afeta o clima, os ecossistemas e até a anterior (boa) relação do Homem com o fogo.
De facto, o fogo-segundo é o resultado da domesticação do fogo pelo Homem, colocando-o ao seu serviço, na cozedura de alimentos, na iluminação e no aquecimento. Não mais se separaram, passando o fogo a ser imprescindível para a vida humana.
O fogo-terceiro desagregou os humanos do fogo, passando a ser possível a vida dos primeiros sem o segundo, sendo que este deixou de se desenvolver sem o primeiro. Até certa altura, o fogo-terceiro era uma ferramenta de produção de energia bruta e havia como que uma convivência entre os três fogos. Até ao início do último século.
A auto-regulação deste sistema a três vai dando lugar a algum domínio do fogo, que atinge um pico de difícil retrocesso, com predominância das queimadas descontroladas relativamente às que eram feitas sob controlo, demasiada combustão e, progressivamente, num sistema de feedback positivo, com a ajuda das alterações climáticas com aquecimento global, passando de fogo cooperante a fogo violento e agressivo.
Inconscientemente, criámos a Idade do Fogo!
Enquanto o fogo-segundo dominou o fogo-primeiro, o fogo-terceiro, de exclusiva obra humana, foi o motor da transformação da Terra, a fonte de energia responsável pelo Antropoceno. Imparável! Evitar alguns fogos na agricultura pode resultar na utilização de produtos químicos poluentes e bastante prejudiciais à saúde, nas áreas naturais ou selvagens pode favorecer queimadas prejudiciais e a utilização excessiva de combustíveis fósseis favorece os incêndios florestais.
Em Portugal, a sul do Tejo, pese embora o contributo do Homem e dos herbívoros, mantendo a vegetação mais rasteira e pouco arbustiva, as condições meteorológicas são favoráveis a grandes incêndios; a norte, mais acidentado e com menos gestão de vegetação, em dias mais quentes, acontece o fogo descontrolado, muitas vezes por mão criminosa ou negligência humana.
As previsões dizem que, no pior cenário, devem arder em Portugal continental cerca de 227 mil hectares, menos de metade da área ardida em 2017; na melhor hipótese, a área ardida poderá ficar nos 20 mil hectares, seis vezes inferior à média da década de 2012-2021.
A Força Aérea prevê ter disponíveis 72 aeronaves, equipas multidisciplinares especializadas para dar melhor apoio à decisão mais próxima do palco de operações e tornar mais eficiente o ataque inicial, atualização dos manuais das Forças Armadas que pilotam meios aéreos e formação sobre o comportamento do fogo, para evitar que a sua aproximação incremente a combustão. O maior orçamento de sempre - 52,7 milhões de euros!
Por muitos milhões que se gastem no combate, este é sempre desigual, a favor do fogo. É preciso garantir que não estamos demasiado focados no combate, mas trazer outros atores que possam ajudar a fortalecer o lado da prevenção.
Os aborígenes, em paisagens naturalmente propensas a incêndios, ateiam os seus fogos antes do aparecimento dos relâmpagos. À medida que os incêndios são mais frequentes, tornam-se mais fáceis de controlar. É isto, temos de voltar a usar o fogo como ferramenta, temos de incrementar o fogo-segundo, adaptado aos nossos tempos. Temos de voltar a ter uma boa relação com o fogo.
As alterações climáticas estão a mudar as projeções e avaliações de risco de incêndio florestal, aumentando-as três a quatro vezes mais, invadindo zonas que, normalmente, não eram afetadas. O problema é que as pessoas têm dificuldade em aceitar, em acreditar, e o grande desafio é fazer acreditar e mobilizar as populações para as medidas preventivas que devem ser adoptadas. Precisamos de investir mais na prevenção e incluir e usar o conhecimento das populações.
Stephen Pyne refere quatro categorias de estratégias para se viver com o fogo: (i) deixar o fogo a cargo da natureza, (ii) substituir o fogo selvagem por fogo controlado, (iii) alterar o caráter do ambiente do fogo e (iv) excluir o fogo. Todas elas corretas e, muitas vezes, em conjunto, em diferentes proporções.
Um dos paradoxos referidos por Pyne é o facto de "à medida que queimamos combustível fóssil, temos de fazer arder paisagens vivas. Temos um défice de fogo. Precisamos de tornar os aceiros mais resistentes face ao que se aproxima - e o fogo pode ser a forma mais segura de o conseguir."
Como diz Pyne, "o fogo é a síntese do contexto", e Tiago M. Oliveira (Presidente do Conselho Diretivo da Agência para a Gestão Integrada do Fogo Rural), no prefácio de Piroceno, "só conseguimos mudar a magnitude com que ele se expressa, se alterarmos antecipadamente o seu contexto, isto é, a vegetação suscetível de arder.".
(Tiago M. Oliveira referiu na apresentação de Piroceno, em 13.05.2023, que, deste facto, ainda não conseguiu convencer o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Espero que não se convença tarde demais)
Paradoxalmente, precisamos de mais fogo para termos menos incêndios.
Referência bibliográfica: Stephen J. Pyne, Piroceno, Livros Zigurate, 2023




