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terça-feira, 20 de junho de 2023

A Idade do Fogo

O fogo é hoje uma preocupação. Lembramo-nos mais dele no Verão, quando o risco é maior e infelizmente pouco, no Outono, Inverno e Primavera, tempo de prevenção. Mas nem sempre foi assim.

Stephen J. Pyne, em Piroceno,

(edição de Livros Zigurate, editora muito recente que saúdo, pela qualidade dos seus 12 livros já editados)

identifica três fogos: o fogo-primeiro, o fogo da natureza, surgido há cerca de 420 milhões de anos, após surgirem as primeiras plantas terrestres; o fogo-segundo, ateado e alimentado por humanos, terá surgido após a última era glacial, há cerca de 2,5 milhões de anos; o fogo-terceiro, atual e praticamente sem limitações, que afeta o clima, os ecossistemas e até a anterior (boa) relação do Homem com o fogo.

De facto, o fogo-segundo é o resultado da domesticação do fogo pelo Homem, colocando-o ao seu serviço, na cozedura de alimentos, na iluminação e no aquecimento. Não mais se separaram, passando o fogo a ser imprescindível para a vida humana.

O fogo-terceiro desagregou os humanos do fogo, passando a ser possível a vida dos primeiros sem o segundo, sendo que este deixou de se desenvolver sem o primeiro. Até certa altura, o fogo-terceiro era uma ferramenta de produção de energia bruta e havia como que uma convivência entre os três fogos. Até ao início do último século.

A auto-regulação deste sistema a três vai dando lugar a algum domínio do fogo, que atinge um pico de difícil retrocesso, com predominância das queimadas descontroladas relativamente às que eram feitas sob controlo, demasiada combustão e, progressivamente, num sistema de feedback positivo, com a ajuda das alterações climáticas com aquecimento global, passando de fogo cooperante a fogo violento e agressivo.

Inconscientemente, criámos a Idade do Fogo!

Enquanto o fogo-segundo dominou o fogo-primeiro, o fogo-terceiro, de exclusiva obra humana, foi o motor da transformação da Terra, a fonte de energia responsável pelo Antropoceno. Imparável! Evitar alguns fogos na agricultura pode resultar na utilização de produtos químicos poluentes e bastante prejudiciais à saúde, nas áreas naturais ou selvagens pode favorecer queimadas prejudiciais e a utilização excessiva de combustíveis fósseis favorece os incêndios florestais.

Em Portugal, a sul do Tejo, pese embora o contributo do Homem e dos herbívoros, mantendo a vegetação mais rasteira e pouco arbustiva, as condições meteorológicas são favoráveis a grandes incêndios; a norte, mais acidentado e com menos gestão de vegetação, em dias mais quentes, acontece o fogo descontrolado, muitas vezes por mão criminosa ou negligência humana.

As previsões dizem que, no pior cenário, devem arder em Portugal continental cerca de 227 mil hectares, menos de metade da área ardida em 2017; na melhor hipótese, a área ardida poderá ficar nos 20 mil hectares, seis vezes inferior à média da década de 2012-2021.

A Força Aérea prevê ter disponíveis 72 aeronaves, equipas multidisciplinares especializadas para dar melhor apoio à decisão mais próxima do palco de operações e tornar mais eficiente o ataque inicial, atualização dos manuais das Forças Armadas que pilotam meios aéreos e formação sobre o comportamento do fogo, para evitar que a sua aproximação incremente a combustão. O maior orçamento de sempre - 52,7 milhões de euros!

Por muitos milhões que se gastem no combate, este é sempre desigual, a favor do fogo. É preciso garantir que não estamos demasiado focados no combate, mas trazer outros atores que possam ajudar a fortalecer o lado da prevenção.

Os aborígenes, em paisagens naturalmente propensas a incêndios, ateiam os seus fogos antes do aparecimento dos relâmpagos. À medida que os incêndios são mais frequentes, tornam-se mais fáceis de controlar. É isto, temos de voltar a usar o fogo como ferramenta, temos de incrementar o fogo-segundo, adaptado aos nossos tempos. Temos de voltar a ter uma boa relação com o fogo.

As alterações climáticas estão a mudar as projeções e avaliações de risco de incêndio florestal, aumentando-as três a quatro vezes mais, invadindo zonas que, normalmente, não eram afetadas. O problema é que as pessoas têm dificuldade em aceitar, em acreditar, e o grande desafio é fazer acreditar e mobilizar as populações para as medidas preventivas que devem ser adoptadas. Precisamos de investir mais na prevenção e incluir e usar o conhecimento das populações.

Stephen Pyne refere quatro categorias de estratégias para se viver com o fogo: (i) deixar o fogo a cargo da natureza, (ii) substituir o fogo selvagem por fogo controlado, (iii) alterar o caráter do ambiente do fogo e (iv) excluir o fogo. Todas elas corretas e, muitas vezes, em conjunto, em diferentes proporções.

Um dos paradoxos referidos por Pyne é o facto de "à medida que queimamos combustível fóssil, temos de fazer arder paisagens vivas. Temos um défice de fogo. Precisamos de tornar os aceiros mais resistentes face ao que se aproxima - e o fogo pode ser a forma mais segura de o conseguir."

Como diz Pyne, "o fogo é a síntese do contexto", e Tiago M. Oliveira (Presidente do Conselho Diretivo da Agência para a Gestão Integrada do Fogo Rural), no prefácio de Piroceno, "só conseguimos mudar a magnitude com que ele se expressa, se alterarmos antecipadamente o seu contexto, isto é, a vegetação suscetível de arder.".

(Tiago M. Oliveira referiu na apresentação de Piroceno, em 13.05.2023, que, deste facto, ainda não conseguiu convencer o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Espero que não se convença tarde demais)

Paradoxalmente, precisamos de mais fogo para termos menos incêndios.

Referência bibliográfica: Stephen J. Pyne, Piroceno, Livros Zigurate, 2023

terça-feira, 16 de maio de 2023

O Futuro tem Mudança

Realizou-se, ontem, no Canto do Tejo Café, em Montijo, a apresentação do livro da Dra. Maria Amélia Antunes, O Futuro Tem Mudança. Com a sala cheia, a mesa contou com com a presença do Dr. Batista Lopes, responsável pela Âncora Editora, da autora e da Doutora Cândida Almeida, que fez a apresentação da obra.

Com excelentes intervenções e toda a atenção dos muitos presentes, o obra apresentada é uma compilação de textos publicados pela autora na imprensa local, regional e nacional e ainda na Revista Municipal da cidade de Montijo, entre 1998 e 2022. Entre outros cargos, a Dra  Amélia Antunes foi Presidente da Câmara Municipal de Montijo, e é Comendadora da Ordem de Mérito, condecorada pelo Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, em 2015.

Os textos revelam reflexões, opiniões, propostas que, ao longo dos anos, consubstanciam o seu percurso político. Uma lição de ética e qualidade, ao serviço da região de Setúbal e da cidade de Montijo, em particular. Mas também do país. Recordo que, ainda que presentemente afastada da atividade política ativa, na qualidade de consultora jurídica, teve um papel de grande relevância na elaboração do estudo que esteve na base da criação das NUTS II e III da Península de Setúbal, que permitirão a atribuição de significativos fundos europeus, promotores do desenvolvimento que a nossa região muito necessita.

O livro vale a pena ser lido, também pela atualidade de alguns dos textos, mesmo passados já bons anos. A título de exemplo, transcrevo duas passagens:

Nos últimos anos, com o aumento das desigualdades sociais, do desemprego, da fome, com a tomada de consciência generalizada para os problemas globais, como os recursos energéticos, as alterações climáticas a multiculturalidade, a igualdade de direitos, os partidos políticos não conseguiram intervir por forma a dar resposta para a resolução dos principais problemas que afetam as pessoas, aparecendo hoje, como instituições fragilizadas, aos olhos dos cidadãos. É um facto iniludível que os partidos não conseguem mobilizar os cidadãos em geral para as suas causas e propostas. A crescente abstenção nos sucessivos atos eleitorais é disso prova bastante, sendo hoje a doença grave da democracia, mas o desinteresse não se fica por aqui. As associações da sociedade civil deixaram de ter a relevância de outrora e autonomia para cumprir o seu papel de agentes sociais, culturais, desportivos e recreativos, não conseguindo a participação generalizada dos seus associados ou angariar novos aderentes. Numa palavra, deixaram de corresponder aos interesses dos seus associados em geral.” Publicado em Rostos de 19.07.2014

Hoje, os cidadãos não participam porque não se identificam com a falta de verdade e transparência, não se identificam porque não confiam nas instituições e nos seus representantes, não se identificam porque sentem o afastamento dos seus representantes e que estes não prestam contas. Não se identificam porque sentem que são usados para outros fins, são enganados, são depois descartáveis; não se identificam porque as suas posições, as suas propostas não são levadas em conta, não se identificam porque percebem que não são os seus interesses que estão a ser defendidos.” Publicado no Diário da Região de 01.04.2016

2014 e 2016!

Parabéns, Dra. Amélia Antunes!

O FUTURO tem MUDANÇA!

terça-feira, 9 de maio de 2023

Um homem multifacetado!

"Estaline matou mais ucranianos do que Hitler matou judeus."

"Estaline foi o principal organizador da grande revolução rural, que controlou de modo impiedosamente tirânico e centralizado. Ao mesmo tempo, praticou purgas cruéis dentro do Partido, no exército e entre os últimos comunistas independentes e críticos, veteranos do tempo de Lenine. É provável que tenha mandado matar mais comunistas do que Hitler."

18 milhões de soviéticos passaram por Gulag, como consequência, pelo menos 10 milhões terão morrido!

"Um tirano sanguinário, um político-máquina, uma personalidade paranóica, um burocrata sem piedade e um fanático ideológico, [...] mas era também um intelectual que se dedicava incessantemente à leitura, à escrita e à edição."

A história era o seu tema preferido, mas dedicava tempo considerável também à ciência, à linguística, à filosofia e à economia política.

Só começou a colecionar livros e a construir uma biblioteca pessoal permanente após a revolução de 1917, mas a sua biblioteca ascendeu a muitos milhares de livros, muitos deles anotados metodicamente.

Em matéria de literatura, Estaline era um moderado, admitindo outras ideias diferentes das suas. Terá referido até que "os escritores são engenheiros da alma humana".

Estaline revolucionário, edificador do Estado, modernizador, monstro, génio, genocida, comandante militar, mas também, leitor, intelectual, escritor. Um homem multifacetado!

As faces tão diferentes de um mesmo homem! É mais frequente do que muitas vezes possamos pensar.

Fontes: A Biblioteca de Estaline, Geoffrey Roberts, 2023; Breve História Mundial da Esquerda, Shlomo Sand; Gulag - Uma História, Anne Applebaum, 2022.

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