Os dias correm, correm muito depressa. Quando damos por isso, já passou. Já passou um dia, já passou uma semana, já passou um ano, já passaram dez anos, já passaram vinte anos... na minha última publicação (Vasco Rodrigues... vinte anos!), falei de acontecimentos de há vinte anos. Parece que foi ontem!
Nem sempre foi assim, quando somos jovens o tempo custa a passar, queremos acelerar, temos pressa. Por vezes ponho-me a pensar que, de facto, o tempo hoje passa mais depressa, que não é apenas a nossa perceção.
(Albert Einstein, na sua Teoria da Relatividade, introduziu o conceito espaço-tempo como um conjunto, como uma única variedade de quatro dimensões, tratando o tempo como uma dimensão adicional às três dimensões espaciais, inseparável destas, já que a passagem do tempo - velocidade do objeto - não é sempre igual, depende da velocidade do observador. Einstein contraria, assim, a mecânica clássica de Isaac Newton, em que o tempo é considerado uma unidade de medida universal. No nosso dia a dia, é esta ainda a idéia que prevalece. Isto para dizer que, tal como Einstein contrariou a teoria de Newton, quem sabe, alguém, um dia, me venha a dar razão! Quem sabe)
Para além dos dias ditos comuns, rotineiros, há dias que, sem que na altura nos seja percetível, serão insequecíveis. Ficam marcados na nossa história.
No âmbito da Avaliação de Desempenho Docente, a Marta, Diretora do Cenforma - Centro de Formação de Professores de Montijo e Alcochete, nomeou-me avaliador externo de duas colegas docentes da Escola Básica 2,3 de Pegões, escola sede do Agrupamento de Escolas de Pegões, Canha e Sto. Isidro.
(recordando, fui o primeiro diretor do Cenforma, entre 1993 e 1995, a minha colega e amiga Maria Aurélia Marcelino foi a autora do seu primeiro logótipo, escolhido por concurso; saudades da Maria Aurélia)
(Foi recentemente nomeado o novo diretor do Cenforma, Custódio Lagartixa, colega e amigo a quem desejo as maiores felicidades e sucessos)
24 de fevereiro de 2022, 06H30M, levantar. Acordar já foi há uma hora atrás, como sempre acontece quando saio da rotina. Pequeno-almoço e a caminho de Pegões. Levei o Type R.
(o Type R é um Honda Civic, uma vaidosice minha. Um carro com performences a mais para a minha idade, mas não para a idade do Filipe. Uma sociedade familiar)
7H45M, Escola Básica 2,3 de Pegões. Há muito que não visitava esta escola. Boas recordações.
(a Escola Básica 2,3 de Pegões foi inaugurada em 1997, durante o exercício das minhas funções de Coordenador do Centro da Área Educativa da Península de Setúbal, tendo eu indicado o meu colega e amigo Flamino Viola para Presidente da Comissão Instaladora; o Flamino levou consigo outro colega e amigo, o Carlos Romão, e a colega Fátima Vilela, com quem tenho menos contactos)
Recebido pela Diretora Mavilde Albino, fui assistir à primeira aula da colega Paula. 8º ano de Ciências Naturais. Recursos geológicos - proteção e conservação da natureza - foi o tema tratado, com incidência especial no impacte ambiental das pedreiras. Uma boa aula.
10H:00M, no Type R, o iogurte do meio da manhã. Ligo ao Filipe.
-- Tudo bem?
-- O Rafael está com Covid. Está aqui deitado no sofá. Agora devemos ter todos.
-- Pois, provavelmente. Eu, até ver, não tenho sintomas nenhuns.
-- Aqui em casa, por enquanto, é só ele, mas temos de ir fazer teste. Não sei se já sabes, mas a Rússia invadiu a Ucrânia, estão em guerra.
-- Não sabia! Eles andavam a ameaçar.
(Às primeiras horas de ontem, o poderio militar russo foi projectado nas três frentes onde, durante meses, se acumularam mais de 150 mil soldados, equipamento, artilharia e material logístico. Através do Donbass, no Leste, em apoio às forças separatistas, pelo norte, por via da Bielorrússia, e pelo sul, a partir da Crimeia, a península anexada por Moscovo em 2014. A ofensiva foi lançada por terra, mar e ar. Público, 25.02.2022)
E já lá vão dezasseis meses! O impensável aconteceu! A guerra regressou à Europa, numa das maiores ofensivas no continente, desde a II Guerra Mundial! Pela mão de Putin, que encarna a vingança daqueles que não apoiaram a queda da URSS e a sua metamorfose em democracia.
(Kiev viveu mais uma noite agitada, com bombardeamentos russos sobre a capital a fazerem disparar as sirenes toda a noite. Os estilhaços de um ataque com drone provocaram um ferido, mas todas as ameças foram destruídas pelas antiaéreas ucranianas, dizem as autoridades locais. Volodymyr Zelensky disse aos jornalistas que pelo menos 21 mil soldados do Grupo Wagner já perderam a vida no leste da Ucrânia, número impossível de confirmar. Certo é que o império de propaganda do chefe dos mercenários, Yevgeny Prigozhin, vai encerrar, mais um castigo pela tentativa falhada de motim do passado dia 24 de junho. Expresso on-line, 02.07.2023)11H35M, volto à mesma sala de aula, para obervação da aula da Lídia. 8º ano de Ciências Naturais. Ecossistemas - fluxos de energia e ciclos de matéria, é o tema. Outra boa aula.
13H:20M, volto ao Type R para regressar ao Montijo. Era o fim do turno da manhã, alunos de saída, outros a entrar. Muitos em volta do carro. Pedi licença para entrar.
-- Grande máquina! O carro é seu, professor?
-- É verdade.
-- Fixe, professor. Grande máquina!
Era claro que, para além de apreciarem o Type R, queriam dizer que eu já não tinha idade para aquilo. Devia ter juízo. Concordo.
Chegado a casa, o neto Rafael prostrado no sofá. De tarde, os pais foram fazer o teste ao SARS Cov-2 - positivo. Eu e a minha mulher fizemos no dia seguinte, de manhã - positivo. Todos de quarentena, durante sete dias. No fim dos sete dias, foi a vez da neta Filipa. Ficámos todos bem. Pensamos nós.
O regresso à escola de Pegões. A guerra na Europa. Covid-19. Um dia diferente. De todos os dias da nossa vida, só alguns ficam a fazer parte da nossa história.
Como diz Saramago em Cadernos de Lanzarote - Diário II,
Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir.
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