domingo, 25 de junho de 2023

Vasco Rodrigues... vinte anos!

A freguesia de S. João dos Caldeireiros pertence ao concelho de Mértola, distrito de Beja, e está situada junto da margem direita da ribeira de Oeiras, afluente da margem direita do Guadiana, no extremo Noroeste do concelho. Esta freguesia tem 103,44 km2 e 442 habitantes (censos de 2021, -22,1% que em 2011), a densidade populacional é de 4,3 hab/km2. O topónimo composto "S. João dos Caldeireiros" alude, no segundo elemento, ao fabrico de caldeiras no local. S. João é uma referência ao padroeiro da freguesia, S. João Batista.

Vasco Rodrigues é um dos lugares desta freguesia, que terá, atualmente, cerca de 10 habitantes permanentes, podendo atingir um total de 25, nalgumas ocasiões. A cerca de 2,5 km da sede da freguesia, situa-se em propriedades adquiridas por Matias Palma, logo após o 25 de abril de 1974, sendo Neto Valente o atual proprietário.

Vasco Rodrigues está junto à antiga Herdade da Váscua, onde atualmente se identifica um outro núcleo populacional. Hoje, estes dois pequenos aglomerados populacionais (Vasco Rodrigues e Váscua) são identificados pela primeira ou segunda designação, como um só, diferenciando-se por "monte de baixo e "monte de cima", respetivamente, tendo em conta a cota mais baixa da primeira.

A origem do topónimo "Vasco Rodrigues" é desconhecida, havendo indicações que o primeiro poderá ter sido Vasco Roiz (origem espanhola?), remontando ao século XVIII.

(foi consultado o Arquivo Municipal de Mértola e a Junta de Freguesia de S. João dos Caldeireiros; em amável conversa com a Sra. Presidente desta autarquia, foram-nos dadas algumas informações aqui partilhadas)

Em finais de 2002, a convite do meu vizinho Filipe, de lá natural, visitei o monte, adquiri as ruínas de uma casa, que reconstruí e, em junho de 2003, há precisamente vinte anos, inaugurei as instalações. 20 anos!

Com Filipe, em Vasco Rodrigues

Lugar simpático, onde preside o sossego, o silêncio só violado pelo chilrear dos pássaros e uma população maioritariamente idosa, sabedora da vida árdua do campo, com ricas histórias para contar. Gostei.

José Raimundo, Cipriano e o José Tomé eram figuras bem conhecidas e referências de Vasco Rodrigues.

(quando a eles se referiam, respeitosamente, era sempre utilizado o Ti, abreviatura de Tio - Ti Zé Raimundo, Ti Cipriano, Ti Zé Tomé)

Com José Manuel Raimundo tive boas conversas, ricas histórias do seu tempo de encarregado de António Champalimaud, dono de muitos hectares do baixo Alentejo, onde Raimundo acompanhou diariamente o "menino" (filho de Champalimaud), trabalhava e orientava outros homens. Tratava-me, respeitosamente, por senhor professor, havia uma grande amizade e guardo, religiosamente, um cachimbo que me ofereceu.

("cachumbo", como ele dizia)

(Não posso deixar de fazer referência ao legado de António Champalimaud, a Fundação Champalimaud, instituição de excelência e referência mundial no tratamento e investigação em saúde, de que sou utente)

                                           
                                 Com José Raimundo e o meu sogro                                   Cipriano e José Raimundo

O Ti Zé Raimundo "acompanhou" a obra de restauração das minhas ruínas, que nem sempre decorriam da forma como ele achava que devia ser; orientava, também, a queima das ervas da cerca, já que as debilidade dos seus 92 anos não permitiam a sua participação mais ativa. Raivoso, na impossibilidade de se dobrar como queria, chegou a ajoelhar-se para dar a sua ajuda. Recordo-o com saudades.

(José Manuel Raimundo (1911-2005) foi encarregado de António Champalimaud durante cerca de vinte anos e, hoje, dá nome a uma rua de Vasco Rodrigues, onde viveu com as suas duas filhas)

Rua Tio José Raimundo, com a sua casa, ao fundo, a azul

Com Cipriano (mais reservado), tive menos convivência, mas com José Tomé também tive grande proximidade, sendo sempre companhia nas duas ou três vezes por ano que lá passava uns tempos. Não faltavam os ovos, as carnes ou o toucinho com que sempre me presenteava, ele e a sua esposa Catarina.

Não esqueço o dia em que me levantei às cinco da manhã para amassar o pão, feito depois pela Conceição (irmã do Filipe) no forno comunitário do monte. O pão da Conceição não dá para esquecer. Uma delícia!

(Umbelina, Ilda, Cipriano e sua esposa Glória, Tomé, Raimundo e uma das filhas, já não estão entre nós; Conceição e a sua mana estão no Algarve; Catarina, esposa de Tomé, está num lar)

Agora, com mais tempo, penso fazer estadas maiores e mais frequentes em Vasco Rodrigues, fazer companhia às aves (águias e outras espécies), aos coelhos, às perdizes, que saltam à nossa frente, nas caminhadas ou corridas; nas barragens, a companhia das rãs, dos patos e dos gansos, ameaçadores quando a nossa presença é próxima demais; companhia dos gamos, lá longe, nos campos; companhia dos linces, que nunca os vemos, companhia dos peixes do Guadiana. Excelentes espaços de leitura, desporto, lazer.

                        Filipe, a minha mulher, os meus sogros e Eufrázia                            Com o Beto

Mas também a companhia das pessoas do monte, claro. Poucos, mas bons. Excelentes vizinhos. Sempre prontos a colaborar, a conversar, a trocar experiências. A Dona Eufrásia, filha do Ti Zé Raimundo, é, hoje, a matriarca do lugar, uma amizade desde os primeiros momentos de 2003, a referência do monte. O Beto, a Cláudia e a filha, o senhor Vitor e a esposa (habitantes mais recentes, aposentados que escolheram este local para viver), o César, a Ana e o Lucas, filho do César.

 
                                                   Com o César                                                                                O Lucas

O César (o vizinho da frente) é bisneto da Ti Ilda, que ainda conheci, mecânico e trabalhador das minas de Neves-Corvo. Trabalhador, divertido, um amigo. O Lucas é o menino de 3 ou 4 anos que, com as suas pernas arqueadas, vi a correr o monte a grande velocidade. Hoje, é o jovem estudante, que trata da agricultura da cerca e da sua criação de galinhas, culturalmente enraizado no seu Alentejo, militante convicto do PCP, defensor acérrimo das suas idéias, com créditos e valor já reconhecido no seu partido. Vão ouvir falar dele!

Se tudo correr como penso, vou continuar por aqui. Com a família. A ler, a correr, a conviver, a dar uns mergulhos no Guadiana, a fazer a minha sesta à Mário Soares, a beber o café no Fatana (em S. João) ou no Guadiana (ou outro, em Mértola), a comprar os excelentes Queijos do Jacob (na freguesia vizinha de S. Sebastião dos Carros), a acordar com o chilrear dos pássaros e os tiros dos caçadores, sempre com esta gente, a que já foi e a que está, ainda, por aqui.

Utilizando algumas das palavras do malogrado Luís Aleluia, vamos caminhando, tentando ter lentes, a continuar a aprender e fazer com que a nossa memória possa ser pedaços que se colam no coração dos outros.

terça-feira, 20 de junho de 2023

A Idade do Fogo

O fogo é hoje uma preocupação. Lembramo-nos mais dele no Verão, quando o risco é maior e infelizmente pouco, no Outono, Inverno e Primavera, tempo de prevenção. Mas nem sempre foi assim.

Stephen J. Pyne, em Piroceno,

(edição de Livros Zigurate, editora muito recente que saúdo, pela qualidade dos seus 12 livros já editados)

identifica três fogos: o fogo-primeiro, o fogo da natureza, surgido há cerca de 420 milhões de anos, após surgirem as primeiras plantas terrestres; o fogo-segundo, ateado e alimentado por humanos, terá surgido após a última era glacial, há cerca de 2,5 milhões de anos; o fogo-terceiro, atual e praticamente sem limitações, que afeta o clima, os ecossistemas e até a anterior (boa) relação do Homem com o fogo.

De facto, o fogo-segundo é o resultado da domesticação do fogo pelo Homem, colocando-o ao seu serviço, na cozedura de alimentos, na iluminação e no aquecimento. Não mais se separaram, passando o fogo a ser imprescindível para a vida humana.

O fogo-terceiro desagregou os humanos do fogo, passando a ser possível a vida dos primeiros sem o segundo, sendo que este deixou de se desenvolver sem o primeiro. Até certa altura, o fogo-terceiro era uma ferramenta de produção de energia bruta e havia como que uma convivência entre os três fogos. Até ao início do último século.

A auto-regulação deste sistema a três vai dando lugar a algum domínio do fogo, que atinge um pico de difícil retrocesso, com predominância das queimadas descontroladas relativamente às que eram feitas sob controlo, demasiada combustão e, progressivamente, num sistema de feedback positivo, com a ajuda das alterações climáticas com aquecimento global, passando de fogo cooperante a fogo violento e agressivo.

Inconscientemente, criámos a Idade do Fogo!

Enquanto o fogo-segundo dominou o fogo-primeiro, o fogo-terceiro, de exclusiva obra humana, foi o motor da transformação da Terra, a fonte de energia responsável pelo Antropoceno. Imparável! Evitar alguns fogos na agricultura pode resultar na utilização de produtos químicos poluentes e bastante prejudiciais à saúde, nas áreas naturais ou selvagens pode favorecer queimadas prejudiciais e a utilização excessiva de combustíveis fósseis favorece os incêndios florestais.

Em Portugal, a sul do Tejo, pese embora o contributo do Homem e dos herbívoros, mantendo a vegetação mais rasteira e pouco arbustiva, as condições meteorológicas são favoráveis a grandes incêndios; a norte, mais acidentado e com menos gestão de vegetação, em dias mais quentes, acontece o fogo descontrolado, muitas vezes por mão criminosa ou negligência humana.

As previsões dizem que, no pior cenário, devem arder em Portugal continental cerca de 227 mil hectares, menos de metade da área ardida em 2017; na melhor hipótese, a área ardida poderá ficar nos 20 mil hectares, seis vezes inferior à média da década de 2012-2021.

A Força Aérea prevê ter disponíveis 72 aeronaves, equipas multidisciplinares especializadas para dar melhor apoio à decisão mais próxima do palco de operações e tornar mais eficiente o ataque inicial, atualização dos manuais das Forças Armadas que pilotam meios aéreos e formação sobre o comportamento do fogo, para evitar que a sua aproximação incremente a combustão. O maior orçamento de sempre - 52,7 milhões de euros!

Por muitos milhões que se gastem no combate, este é sempre desigual, a favor do fogo. É preciso garantir que não estamos demasiado focados no combate, mas trazer outros atores que possam ajudar a fortalecer o lado da prevenção.

Os aborígenes, em paisagens naturalmente propensas a incêndios, ateiam os seus fogos antes do aparecimento dos relâmpagos. À medida que os incêndios são mais frequentes, tornam-se mais fáceis de controlar. É isto, temos de voltar a usar o fogo como ferramenta, temos de incrementar o fogo-segundo, adaptado aos nossos tempos. Temos de voltar a ter uma boa relação com o fogo.

As alterações climáticas estão a mudar as projeções e avaliações de risco de incêndio florestal, aumentando-as três a quatro vezes mais, invadindo zonas que, normalmente, não eram afetadas. O problema é que as pessoas têm dificuldade em aceitar, em acreditar, e o grande desafio é fazer acreditar e mobilizar as populações para as medidas preventivas que devem ser adoptadas. Precisamos de investir mais na prevenção e incluir e usar o conhecimento das populações.

Stephen Pyne refere quatro categorias de estratégias para se viver com o fogo: (i) deixar o fogo a cargo da natureza, (ii) substituir o fogo selvagem por fogo controlado, (iii) alterar o caráter do ambiente do fogo e (iv) excluir o fogo. Todas elas corretas e, muitas vezes, em conjunto, em diferentes proporções.

Um dos paradoxos referidos por Pyne é o facto de "à medida que queimamos combustível fóssil, temos de fazer arder paisagens vivas. Temos um défice de fogo. Precisamos de tornar os aceiros mais resistentes face ao que se aproxima - e o fogo pode ser a forma mais segura de o conseguir."

Como diz Pyne, "o fogo é a síntese do contexto", e Tiago M. Oliveira (Presidente do Conselho Diretivo da Agência para a Gestão Integrada do Fogo Rural), no prefácio de Piroceno, "só conseguimos mudar a magnitude com que ele se expressa, se alterarmos antecipadamente o seu contexto, isto é, a vegetação suscetível de arder.".

(Tiago M. Oliveira referiu na apresentação de Piroceno, em 13.05.2023, que, deste facto, ainda não conseguiu convencer o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Espero que não se convença tarde demais)

Paradoxalmente, precisamos de mais fogo para termos menos incêndios.

Referência bibliográfica: Stephen J. Pyne, Piroceno, Livros Zigurate, 2023

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Retenção dos alunos - sim ou não?

A retenção dos alunos no ano de escolaridade que frequentam é um tema sempre atual e que divide opiniões.

(chumbar, reprovar, reter, por esta ordem, foram os termos empregues no antigamente, e que foram, sucessivamente, suavizados)

Reter pressupõe uma situação transitória, uma permanência no mesmo ano, a fim de dar ao aluno oportunidade de, em mais tempo, atingir as aprendizagens mínimas, definidas para cada ano de escolaridade.

Ligada à retenção está a escolaridade obrigatória, que foi evoluindo da quarta classe (hoje 4º ano de escolaridade), depois 9º ano (ensino básico) e, atualmente, 12º ano (ensino secundário). Pressupõe-se, assim, que todos os alunos terão capacidades cognitivas para atingir as aprendizagens essenciais para cada nível de ensino, embora com diferentes níveis de consecução.

Excetuando no final de cada ciclo (4º, 6º, 9º e 12º anos), a retenção só se poderá verificar a título excecional, ou seja, na prática, quase nunca (ou nunca), e mesmo no final de ciclo a retenção continua a ser excecional. Claro que, se corresponder a uma avaliação devidamente ponderada e verdadeira do desempenho dos alunos, como acontecerá na esmagadora maioria dos casos, ainda bem.

Mas os professores sentem uma pressão latente do sistema,

(que se sente no ar que se respira nas escolas, uma pressão do Ministério da Educação, de algumas direções das escolas, mas que dependerá, também, da perceção de cada um)

uma pressão para os alunos não serem retidos, podendo, assim, gerar um sucesso escolar tão fictício quanto deixe de corresponder à avaliação das reais aprendizagens adquiridas.

A retenção trará benefícios para o desenvolvimento educativo dos alunos, valoriza o rigor, a exigência, o esforço. Premeia os que se dedicam e motivam o sucesso educativo, a resiliência e a capacitação para transpor obstáculos futuros. Isto, para os que serão a favor das retenções.

Reter alunos será uma medida punitiva que poderá até, por vezes, promover a punição familiar, muitas vezes desproporcionada. Pode, em si mesma, consubstanciar injustiças, considerando a existência de critérios e instrumentos de avaliação diferentes de escola para escola. Pode, ainda, ignorar fragilidades do próprio sistema educativo (desde o pré-escolar) e a existência de ambientes (escolares e/ou familiares) pouco propícios à aprendizagem, por que o aluno foi passando ao longo do seu percurso escolar. Isto, para os que serão contra a retenção.

Todos terão alguma razão e os argumentos de uns não excluem, necessariamente, todos os dos outros.

Tal como o Professor Domingos Fernandes e muito colegas com que me cruzei durante mais de 40 anos, acredito, sem hesitar, que todos os alunos têm capacidades para aprender. Todos terão capacidades para adquirir as aprendizagens essenciais consideradas mínimas para a transição de ano de escolaridade. Necessitarão, com certeza, de um nível diferenciado de apoio para isso acontecer. Uns terão um nível de consecução de objetivos superior, outros inferior, consoante as suas capacidades cognitivas, o seu empenho e o seu ambiente social e familiar.

Aqui chegados, como conseguir que, ao seu nível, todos tenham o seu sucesso educativo, que lhes permita ser útil na sociedade, seguir as suas vidas de acordo com as suas legítimas aspirações?

(entenda-se que não tenho, obviamente, a pretensão de ser inovador mas tão só de refletir sobre esta matéria (e partilhar convosco), usando experiências, leituras e aprendizagens que fui obtendo ao longo da minha vida profissional, com muita colaboração de colegas professores e alunos. Algumas escolas, nos limites da legislação, já dão prática a algumas destas reflexões.)

Para isso, a Escola precisa de mais recursos, ou precisa de os otimizar e/ou rentabilizar. Como referimos, os alunos têm necessidades de apoio diferenciadas. Todos os professores, nas suas turmas, são confrontados com essas diferenças e todos dias ouvem dizer que o ensino terá de atender a cada um, tendo em conta as suas diferenças. Fácil dizer! Difícil (ou impossível) de concretizar com 30, ou mesmo 25 alunos na turma!

Com um horário que incluísse um ou dois tempos letivos

(disse letivos, estas atividades de apoio são, de facto, letivas)

para apoio aos seus alunos com mais dificuldades, seria possível aos docentes fazer essa diferenciação. Um ou dois tempos letivos, consoante a carga horária de cada disciplina, podendo também as mesmas horas serem afetas a mais de uma turma, até um número limite (reduzido) de alunos.

(com a possibilidade de algumas destas horas se realizarem à distância, ao critério da direção da escola)

Assim, teríamos alunos que, para o mesmo currículo, frequentariam 3 ou 4 tempos, por exemplo, para a mesma disciplina, consoante as suas necessidades. Esses tempos teriam de ser obrigatórios para os alunos indicados, podendo ser frequentados apenas em parte do ano letivo.

O envolvimento dos pais e encarregados de educação seria essencial,

(a contratualização com os pais poderá resultar num maior compromisso, maior co-responsabilização dos pais pelo plano de apoio. Sabemos das dificuldades de envolver as famílias, até porque há famílias e "famílias" que não existem. Nenhuma medida terá 100% de êxito e depois, será mais um papel, mas talvez este valha a pena, em substituição de muitos outros)

com especial empenho dos diretores de turma na explicitação destes objetivos, que justificariam um acréscimo de horas curriculares (pelo menos, temporariamente), mas também da importante e imprescindível colaboração em ambiente familiar.

(afinal, quando temos mais dificuldades, temos de trabalhar mais para obter os mesmos resultados, e esta será a cultura do esforço a incutir nos alunos)

A Escola inclusiva não tem de ser facilitista! A Escola deverá proporcionar a todos as mesmas oportunidades, sem abdicar do rigor, da exigência e da qualidade. Numa Escola com recursos otimizados, a retenção será, naturalmente, excecional, não abdicando de uma avaliação fortemente formativa, mas justa e rigorosa, promotora de um sucesso real, não sendo um meio de exclusão e descriminação.

Retenção dos alunos - sim ou não? Sim, mas depois de esgotados todos os recursos necessários para que tal não aconteça. Recursos que os docentes necessitam para um sério exercício da profissão.

Nada se faz sem a colaboração de todos os agentes educativos - alunos, professores, pais e encarregados de educação, pessoal não docente e autarquias locais, mas precisamos de os estimular, de melhorar as carreiras profissionais, de apostar nas escolas, com mais e melhores recursos humanos e materiais.

Temos excelentes profissionais!

A Escola Pública de qualidade será sempre cara, mas será sempre um investimento!

terça-feira, 30 de maio de 2023

João Vau - o meu padrinho!

Era uma vez uma senhora que tinha um lugar na praça (hoje, Mercado Municipal), no Montijo, conhecida por Ti Virgínia. Na altura, por volta dos anos sessenta do século passado, os fornecedores de frutas e hortaliças para o mercado chegavam por volta das sete, sete e meia da manhã, mas a Ti Virgínia nunca chegava depois das seis, para conseguir as frutas de melhor qualidade.

Lembro-me de algumas vendedoras, 

(a Ana Rosa, a Eugénia, a Maria Luísa, a Augusta, que vendia frangos,...)

até porque eu era visita obrigatória de todas estas e de muitas mais, pelo menos uma vez por semana. A Ti Virgínia, a minha avó, dava-me a mão e ia mostrar-me a quase toda a praça, com grande orgulho e entusiasmo! Era uma alegria! O neto da Ti Virgínia era lá famoso!

Com a minha mãe, ia muitas vezes à praça e recebia a semanada, penso que de cinco escudos, que foi aumentando e chegou a vinte. Com mais alguns anitos, comecei a ir ajudar a minha avó a pesar, a fazer trocos, a fazer caldo verde.

(muito gostava eu de dar à manivela daquela máquina!)

Foram bons anos!

Por hábito, quando recebia o resultado dos exercícios (como se dizia na altura), que fazia na escola primária, na turma do Professor Cortiço, ia logo dar a notícia à Ti Virgínia, principalmente, quando eram positivas, claro. Um dia, vim da escola direto à praça e dei notícia de um descuido: xi-xi nas calças! Como morava perto da praça, a minha avó levou-me a casa e, cá de baixo da escada, disse à minha mãe : "olha, Maria, o teu filho teve um bom!", isto acompanhado de grandes gargalhadas. Uma alegria!

Mas isto tudo

(desviei-me do objetivo desta publicação)

para dizer que, a praça, tal como hoje, também tinha talhos, um deles era do "Zé do Talho", ou o "Zé do Vau", com quem a minha avó também tinha muito boa relação. O "Zé do Vau" tinha um filho, por quem a Ti Virgínia tinha um grande carinho, uma grande admiração, andava a estudar, andava a tirar um curso - o João Vau, o João Francisco de Oliveira Vau.

Bom, de facto, a Ti Virgínia adorava o João Vau e ele também tinha um grande carinho por ela, e o João Vau, o filho do "Zé do Vau", tinha de ser padrinho do neto. E foi! Padrinho de batismo,

(na altura, por influência da minha titi Júlia, todos tínhamos de ser católicos; depois, mais tarde, comecei a faltar à missa para ir ver o futebol, a titi não gostou, mas o meu pai não me obrigou a ir à missa, e acabou assim)

dizia, padrinho de batismo e depois, padrinho de casamento, já a minha avó não estava entre nós. "Muito gostaria a Ti Virgínia de ter podido ver!", dizia-me ele.

Os padrinhos, em 13 de outubro de 1979

E o João Vau assumiu, por inteiro, a sua função de padrinho. Professor de profissão, acompanhou toda a minha fase escolar, com um contínuo apoio, muito importante para a sua conclusão. Depois dos meus pais, não tenho dúvidas em dizer que foi quem mais me influenciou em tudo o que fui fazendo na vida, como aluno e, depois, como colega professor. As corridas e o gosto pelos livros foram também obra dele!

(o João era amante do jogging, tem muitos quilómetros nas pernas, e um amante de livros, como ainda é hoje, um amante do conhecimento. Com muita pena minha, nunca fiz uma corrida com ele, já que um acidente não o deixou continuar, mas não me esqueço das nossas visitas à Livraria Escolar Editora, na Rua da Escola Politécnica, junto à antiga Faculdade de Ciências de Lisboa (FCL), sempre à procura das últimas novidades da ciência)

Todos sabem bem de quem falo, do Dr. João Vau, professor que lecionou muitos anos na atual Escola Secundária Jorge Peixinho (ESJP).

(antes, Escola Industrial e Comercial de Montijo, Escola Secundária de Montijo e Escola Secundária Nº 1 de Montijo)

Casado com a minha madrinha Silvina Vau, também docente aposentada, e com dois filhos, o Nuno e a Sílvia, médico e bióloga investigadora, ambos doutorados. Destacando alguns dados do seu vasto currículo, foi o primeiro docente efetivo desta sua escola proveniente de Exame de Estado perante um júri nacional onde, logo após o 25 de Abril de 1974, foi Diretor da então Escola Industrial e Comercial de Montijo. Na ESJP, muitos outros cargos se seguiram. Em parceria com o Professor Doutor Galopim de Carvalho, que orientava a componente científica, foi Orientador de Estágio do Ramo Educacional da FCL, durante 14 anos, na altura, o único núcleo de estágio de Geologia no país.

Em 1983, no âmbito do Grupo de Estágio do Ramo Educacional da FCL, no seminário sobre Sismologia, na Câmara Municipal de Montijo, com o Professor Francisco Santos (Presidente do Conselho Diretivo da ESJP), o autor desta publicação, o Professor Doutor Carlos Sousa Oliveira (do Laboratório Nacional de Engenharia Civil) e o Dr. Sérgio Pinto, já falecido (Presidente da Câmara Municipal de Montijo)

Em 1980, com os Professores Galopim de Carvalho, Gil Pereira, José Brandão, Perdigão Silva e Pires Batista, foi co-autor do primeiro manual escolar de Geologia, para o 12º ano do ensino secundário. Em 1984, foi co-autor da prova de exame nacional do 12º ano, de Geologia. Pertenceu ao grupo restrito de professores do ensino secundário convidados para as conferências, organizadas pela Fundação Calouste Gulbenkian, a propósito da Conferência do Rio,

(também conhecida como Eco-92, Cúpula da Terra, Cimeira do Verão, Conferência do Rio de Janeiro e Rio 92, foi uma conferência de chefes de estado organizada pelas Nações Unidas e realizada de 3 a 14 de junho de 1992 na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil)

Ao longo dos seus 44 anos de serviço, em escolas do Barreiro, Setúbal e Montijo, tinha com os seus muitos alunos e estagiários uma excelente relação, uma boa disposição permanente e um amor à sabedoria, que lhes transmitia sempre com grande saber, entusiasmo e dedicação.

Em janeiro de 2001, no jantar de minha despedida do Centro da Área Educativa da Península de Setúbal, com o meu filho, o Major Parracho, que dirigia o Gabinete de Segurança do Ministério da Educação, e o Capitão Pires, do Gabinete de Segurança da Direção Regional de Educação de Lisboa.

Um amante da sua Geologia, mas não só. A leitura diária, que hoje continua, quase compulsiva, de jornais, de revistas e de literatura variada, faz dele uma fonte de saber em variadas áreas do conhecimento. Recentemente, convidado por alguns docentes, fez uma palestra para alunos e professores da sua ESJP, sobre o Universo e, na Universidade Sénior do Montijo (USM), uma outra sobre "O Papel da Mulher nas Ciências". Em ambas, com plateias cheias e bastante interessadas. Continua a colaborar com a USM, tendo prevista nova conferência, em setembro do corrente ano.

Na Palestra sobre o Universo, com as Professoras Rosa Balão e Teresa Bordeira, na ESJP, em 3 de junho de 2022


Na conferência "O Papel da Mulher nas Ciências", com os seus netos, na USM, em 3 de março de 2023

Em reunião da Assembleia Municipal de Montijo, de 13 de setembro de 2013 (a cerca de um mês do fim do mandato autárquico e em pleno período eleitoral), o então deputado municipal José Manuel Mata Justo

(o meu colega e grande amigo Zé Justo, também, tal como eu, professor recentemente aposentado, integrou também comigo um grupo de estágio orientado pelo Professor João Vau)

dizia que o Dr. José Mata Justo apresentou, nessa altura, uma sugestão para atribuição da medalha de ouro da cidade de Montijo ao Professor João Francisco de Oliveira Vau. Recentemente, após a excelente conferência na Universidade Sénior que atrás referi, lamentou que ainda não tivesse sido atribuída essa merecida distinção.

Seria merecido! Também muito me alegrava que isso acontecesse!

João Vau, uma vida ao serviço do conhecimento, do ensino, da Educação do Montijo!

Bem haja Dr. João Vau! Bem haja padrinho! Obrigado.

PS - Encontrei-o, ontem, em casa, com 82 anos, com o entusiasmo de sempre, a ler um livro do Professor Carlos Teixeira, eminente professor de Geologia! Para saber mais! Sempre!

terça-feira, 23 de maio de 2023

A carreira e os alunos, a razão da profissão docente.

Iniciei a minha carreira em 13 de janeiro de 1978, na Escola Secundária da Moita, com horário incompleto, como Professor Provisório.

Acabei o ano letivo de 1977-78 e interrompi para terminar a licenciatura, voltando à docência em 23 de outubro de 1981, na Escola C+S de Alcochete, também como Professor Provisório.

Acabei o ano letivo 1981-82 e, no ano seguinte, como Professor Estagiário, ingressei na Escola Secundária do Montijo (hoje, Escola Secundária Jorge Peixinho). Terminado o estágio, aqui continuei em 1983-84, como Professor Não Efetivo.

Em 1984-85 fui colocado na Escola Secundária da Moita, já como Professor Efetivo, tendo sido destacado para a Escola Secundária do Montijo como Delegado à Profissionalização, orientando (ou tentando orientar) um professor estagiário.

Em 1985-86 fui colocado novamente na Escola C+S de Alcochete, mas já como Professor Efetivo, voltando em 1986-87 à Escola Secundária do Montijo, depois Escola Secundária Nº 1 de Montijo e depois Escola Secundária Jorge Peixinho.

Entre 1996 e 2001 fui destacado para a Direção Regional de Educação de Lisboa e Vale do Tejo, onde exerci o cargo de Coordenador do Centro da Área Educativa da Península de Setúbal.

Voltei à minha Escola Secundária Jorge Peixinho e aqui fiquei. Desempenhei vários cargos e, com muita honra e dedicação, fui Diretor entre 17 de junho de 2009 e 17 de julho de 2013. Aposentei-me em 1 de fevereiro de 2023.

Ensinamos o melhor que sabemos e podemos, mas aprendemos muito, com os colegas, com os alunos. Os alunos, a razão de ser da nossa profissão.

Quero, por isso, aqui, recordar, com saudade e reconhecimento, todos os meus alunos. Pena que só tenha fotos deles a partir 2015. Antes não era hábito fazer esse registo, ou eu infelizmente não o tinha, e as tecnologias passaram a facilitar bastante.

Deixo aqui algumas dessas fotos, das minhas turmas, desde o ano letivo de 2014-2015.

Turma C do 10° Ano - Ano Letivo 2014-2015

Turma C do 11° Ano - Ano Letivo 2014-2015

Turma B do 10° Ano - Ano Letivo 2015-2016

Turma B do 11° Ano - Ano Letivo 2015-2016

Turma B do 10° Ano - Ano Letivo 2016-2017

Turma B do 11° Ano - Ano Letivo 2016-2017

Turma B do 11° Ano - Ano Letivo 2017-2018

Turma A do 10° Ano - Ano Letivo 2018-2019

Turma B do 10° Ano - Ano Letivo 2020-2021

Turma B do 11° Ano - Ano Letivo 2021-2022

Alguns dias antes da data de aposentação, já não voltaria à escola, recebi um telefonema dos alunos da minha última turma, dizendo que se queriam despedir de mim. Voltei e aqui fica a última foto, em 26 de janeiro de 2023. Só os professores sabem o que, verdadeiramente, isto significa.


Um grande abraço a todos eles, todos, os da foto e a todos os outros que tive em 41 anos de serviço.

Um profundo e reconhecido agradecimento aos colegas que, ao longo dos anos, me foram ensinando a ser professor. Igualmente, estou muito agradecido aos assistentes técnicos e operacionais, cujo trabalho é tão importante e muitas vezes não reconhecido.

Nas fotos, quem conhece quem?

Obrigado.
Sucessos e felicidades para todos.

domingo, 21 de maio de 2023

IA - soam alertas!

Praticamente todos os dias temos notícias relacionadas com a inteligência artificial (IA). Recconhece-se as suas muitas vantagens mas, atrevo-me a dizer, o que mais está a mobilizar as atenções são os seus perigos.

O G7, os líderes das sete economias mais ricas do mundo, reunidas no Japão, deram início ao que designaram por Processo de Hiroxima. Pretende-se que este processo culmine com um acordo para regulamentar o uso da IA, protegendo os cidadãos dos seus perigos. Não será fácil. De facto, concordando todos com a defesa dos valores da democracia, nipónicos e norte-americanos temem que a regulamentação possa ser demasiado exigente, limitando a inovação, enquanto a Europa trabalha por si, onde a Itália já aboliu algumas ferramentas da IA mais populares.

Importa, de facto, uma utilização responsável, que possamos ter uma IA de confiança. Como refere Yuval Noah Harari, "esta não é uma inovação tecnológica como outras, é a primeira que consegue tomar decisões por si própria", daí a necessidade urgente de regulamentação. Será essa a preocupação do G7. Deverá ser quanto antes, enquanto a IA ainda é quase nada, já que a sua evolução será muito rápida, em poucos anos. Lembremo-nos que o primeiro telemóvel apareceu há apenas 50 anos e, desde aí, a tecnologia evoluiu de forma cada vez mais rápida. Nesta matéria, em 10 anos, tudo vai mudar!

Regra básica: o utilizador saber que não está a conversar com um humano. Reduzir riscos de manipulação, salvaguardar a democracia. Teoricamente, aqui, parece haver unanimidade no G7, mas o G7 não garante a total globalização das opiniões! Haverá grandes divisões, até porque a muitos interessará bastante a manipulação de atos eleitorais, por exemplo, com fake news e outras ações que, atualmente, já proliferam. A intimidade é a arma mais eficiente e a IA ganhou essa capacidade!

Vejamos algumas possíveis consequências. O sistema financeiro, por exemplo. Atualmente, mais de 90% do dinheiro não é físico e o que dá valor ao dinheiro são opiniões divulgadas por ministros, banqueiros e, agora, os "donos" das criptomoedas.

Na administração pública, precisamos de garantir que os direitos dos cidadãos não sejam postos em causa,  garantir que algumas matérias sejam obrigatoriamente tratadas por pessoas e/ou com rigorosa e permanente supervisão de pessoas sobre máquinas. Aperfeiçoamento da prevenção de ciber-ataques, agora que, certamente, irão ter muito mais potencialidades, já que também vão utilizar a IA. Isto, para podermos usufruir de uma administração pública mais eficaz e mais próxima do cidadão, benefício de que podemos esperar da IA.

Na Educação, a IA poderá ser um bom complemento de personalização do ensino, que o torne mais individualizado, melhor adaptado às limitações e capacidades de cada um. Também na desburocratizarão da profissão docente, libertando professores para tarefas pedagógicas e pensamento crítico. Mas, simular é grande arte da IA e isso terá profundo impacto na avaliação dos alunos que, reformulada, poderá fornecer feedback mais eficaz sobre o seu desempenho, com benefícios para estes e professores. Temos de nos preocupar com a formação dos docentes e da restante comunidade escolar. Temos de nos preocupar com a atualização de redes e equipamentos informáticos das escolas, em grande parte, obsoletos. Até para prevenir desigualdades, inerentes a acesso diferenciado dos alunos à tecnologia. Não estamos, seguramente, preparados para isto. Muito há a fazer para aliviar a carga burocrática de professores e serviços administrativos, potenciaríamos o ensino à distância, com ambientes de aprendizagem mais interativos e inclusivos, e estimular o pensamento crítico dos estudantes, sem abdicar, claro, das relações interpessoais, da empatia com os alunos. O ambiente que, atualmente, se vive nas escolas básicas e secundárias está longe de ser a mais favorável para o trabalho e inovação dos seus trabalhadores. Precisamos apostar e valorizar os recursos humanos das nossas escolas, dar-lhes estímulo para os preparar para a mudança. Estabilizar o ambiente nas escolas.

E o emprego, ou melhor, o desemprego, os postos de trabalho? Que impacto? Os postos de trabalho ligados a estas especialidades tecnológicas poderão compensar a cada vez maior substituição de humanos pela IA?

O investimento de cada euro e tempo em IA tem de ser acompanhado com, pelo menos, o mesmo investimento na Educação, nos seus recursos materiais e humanos, por forma a que o primeiro investimento não resulte em algo inútil, ou até contraproducente para o nosso desenvolvimento. Saibamos aproveitar as potencialidades da IA e combater os seus riscos.

terça-feira, 16 de maio de 2023

O Futuro tem Mudança

Realizou-se, ontem, no Canto do Tejo Café, em Montijo, a apresentação do livro da Dra. Maria Amélia Antunes, O Futuro Tem Mudança. Com a sala cheia, a mesa contou com com a presença do Dr. Batista Lopes, responsável pela Âncora Editora, da autora e da Doutora Cândida Almeida, que fez a apresentação da obra.

Com excelentes intervenções e toda a atenção dos muitos presentes, o obra apresentada é uma compilação de textos publicados pela autora na imprensa local, regional e nacional e ainda na Revista Municipal da cidade de Montijo, entre 1998 e 2022. Entre outros cargos, a Dra  Amélia Antunes foi Presidente da Câmara Municipal de Montijo, e é Comendadora da Ordem de Mérito, condecorada pelo Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, em 2015.

Os textos revelam reflexões, opiniões, propostas que, ao longo dos anos, consubstanciam o seu percurso político. Uma lição de ética e qualidade, ao serviço da região de Setúbal e da cidade de Montijo, em particular. Mas também do país. Recordo que, ainda que presentemente afastada da atividade política ativa, na qualidade de consultora jurídica, teve um papel de grande relevância na elaboração do estudo que esteve na base da criação das NUTS II e III da Península de Setúbal, que permitirão a atribuição de significativos fundos europeus, promotores do desenvolvimento que a nossa região muito necessita.

O livro vale a pena ser lido, também pela atualidade de alguns dos textos, mesmo passados já bons anos. A título de exemplo, transcrevo duas passagens:

Nos últimos anos, com o aumento das desigualdades sociais, do desemprego, da fome, com a tomada de consciência generalizada para os problemas globais, como os recursos energéticos, as alterações climáticas a multiculturalidade, a igualdade de direitos, os partidos políticos não conseguiram intervir por forma a dar resposta para a resolução dos principais problemas que afetam as pessoas, aparecendo hoje, como instituições fragilizadas, aos olhos dos cidadãos. É um facto iniludível que os partidos não conseguem mobilizar os cidadãos em geral para as suas causas e propostas. A crescente abstenção nos sucessivos atos eleitorais é disso prova bastante, sendo hoje a doença grave da democracia, mas o desinteresse não se fica por aqui. As associações da sociedade civil deixaram de ter a relevância de outrora e autonomia para cumprir o seu papel de agentes sociais, culturais, desportivos e recreativos, não conseguindo a participação generalizada dos seus associados ou angariar novos aderentes. Numa palavra, deixaram de corresponder aos interesses dos seus associados em geral.” Publicado em Rostos de 19.07.2014

Hoje, os cidadãos não participam porque não se identificam com a falta de verdade e transparência, não se identificam porque não confiam nas instituições e nos seus representantes, não se identificam porque sentem o afastamento dos seus representantes e que estes não prestam contas. Não se identificam porque sentem que são usados para outros fins, são enganados, são depois descartáveis; não se identificam porque as suas posições, as suas propostas não são levadas em conta, não se identificam porque percebem que não são os seus interesses que estão a ser defendidos.” Publicado no Diário da Região de 01.04.2016

2014 e 2016!

Parabéns, Dra. Amélia Antunes!

O FUTURO tem MUDANÇA!

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