A freguesia de S. João dos Caldeireiros pertence ao concelho de Mértola, distrito de Beja, e está situada junto da margem direita da ribeira de Oeiras, afluente da margem direita do Guadiana, no extremo Noroeste do concelho. Esta freguesia tem 103,44 km2 e 442 habitantes (censos de 2021, -22,1% que em 2011), a densidade populacional é de 4,3 hab/km2. O topónimo composto "S. João dos Caldeireiros" alude, no segundo elemento, ao fabrico de caldeiras no local. S. João é uma referência ao padroeiro da freguesia, S. João Batista.
Vasco Rodrigues é um dos lugares desta freguesia, que terá, atualmente, cerca de 10 habitantes permanentes, podendo atingir um total de 25, nalgumas ocasiões. A cerca de 2,5 km da sede da freguesia, situa-se em propriedades adquiridas por Matias Palma, logo após o 25 de abril de 1974, sendo Neto Valente o atual proprietário.
Vasco Rodrigues está junto à antiga Herdade da Váscua, onde atualmente se identifica um outro núcleo populacional. Hoje, estes dois pequenos aglomerados populacionais (Vasco Rodrigues e Váscua) são identificados pela primeira ou segunda designação, como um só, diferenciando-se por "monte de baixo e "monte de cima", respetivamente, tendo em conta a cota mais baixa da primeira.
A origem do topónimo "Vasco Rodrigues" é desconhecida, havendo indicações que o primeiro poderá ter sido Vasco Roiz (origem espanhola?), remontando ao século XVIII.
(foi consultado o Arquivo Municipal de Mértola e a Junta de Freguesia de S. João dos Caldeireiros; em amável conversa com a Sra. Presidente desta autarquia, foram-nos dadas algumas informações aqui partilhadas)
Em finais de 2002, a convite do meu vizinho Filipe, de lá natural, visitei o monte, adquiri as ruínas de uma casa, que reconstruí e, em junho de 2003, há precisamente vinte anos, inaugurei as instalações. 20 anos!
Lugar simpático, onde preside o sossego, o silêncio só violado pelo chilrear dos pássaros e uma população maioritariamente idosa, sabedora da vida árdua do campo, com ricas histórias para contar. Gostei.
José Raimundo, Cipriano e o José Tomé eram figuras bem conhecidas e referências de Vasco Rodrigues.
(quando a eles se referiam, respeitosamente, era sempre utilizado o Ti, abreviatura de Tio - Ti Zé Raimundo, Ti Cipriano, Ti Zé Tomé)
Com José Manuel Raimundo tive boas conversas, ricas histórias do seu tempo de encarregado de António Champalimaud, dono de muitos hectares do baixo Alentejo, onde Raimundo acompanhou diariamente o "menino" (filho de Champalimaud), trabalhava e orientava outros homens. Tratava-me, respeitosamente, por senhor professor, havia uma grande amizade e guardo, religiosamente, um cachimbo que me ofereceu.
("cachumbo", como ele dizia)
(Não posso deixar de fazer referência ao legado de António Champalimaud, a Fundação Champalimaud, instituição de excelência e referência mundial no tratamento e investigação em saúde, de que sou utente)
O Ti Zé Raimundo "acompanhou" a obra de restauração das minhas ruínas, que nem sempre decorriam da forma como ele achava que devia ser; orientava, também, a queima das ervas da cerca, já que as debilidade dos seus 92 anos não permitiam a sua participação mais ativa. Raivoso, na impossibilidade de se dobrar como queria, chegou a ajoelhar-se para dar a sua ajuda. Recordo-o com saudades.
(José Manuel Raimundo (1911-2005) foi encarregado de António Champalimaud durante cerca de vinte anos e, hoje, dá nome a uma rua de Vasco Rodrigues, onde viveu com as suas duas filhas)
Com Cipriano (mais reservado), tive menos convivência, mas com José Tomé também tive grande proximidade, sendo sempre companhia nas duas ou três vezes por ano que lá passava uns tempos. Não faltavam os ovos, as carnes ou o toucinho com que sempre me presenteava, ele e a sua esposa Catarina.
Não esqueço o dia em que me levantei às cinco da manhã para amassar o pão, feito depois pela Conceição (irmã do Filipe) no forno comunitário do monte. O pão da Conceição não dá para esquecer. Uma delícia!
(Umbelina, Ilda, Cipriano e sua esposa Glória, Tomé, Raimundo e uma das filhas, já não estão entre nós; Conceição e a sua mana estão no Algarve; Catarina, esposa de Tomé, está num lar)
Agora, com mais tempo, penso fazer estadas maiores e mais frequentes em Vasco Rodrigues, fazer companhia às aves (águias e outras espécies), aos coelhos, às perdizes, que saltam à nossa frente, nas caminhadas ou corridas; nas barragens, a companhia das rãs, dos patos e dos gansos, ameaçadores quando a nossa presença é próxima demais; companhia dos gamos, lá longe, nos campos; companhia dos linces, que nunca os vemos, companhia dos peixes do Guadiana. Excelentes espaços de leitura, desporto, lazer.
Mas também a companhia das pessoas do monte, claro. Poucos, mas bons. Excelentes vizinhos. Sempre prontos a colaborar, a conversar, a trocar experiências. A Dona Eufrásia, filha do Ti Zé Raimundo, é, hoje, a matriarca do lugar, uma amizade desde os primeiros momentos de 2003, a referência do monte. O Beto, a Cláudia e a filha, o senhor Vitor e a esposa (habitantes mais recentes, aposentados que escolheram este local para viver), o César, a Ana e o Lucas, filho do César.
O César (o vizinho da frente) é bisneto da Ti Ilda, que ainda conheci, mecânico e trabalhador das minas de Neves-Corvo. Trabalhador, divertido, um amigo. O Lucas é o menino de 3 ou 4 anos que, com as suas pernas arqueadas, vi a correr o monte a grande velocidade. Hoje, é o jovem estudante, que trata da agricultura da cerca e da sua criação de galinhas, culturalmente enraizado no seu Alentejo, militante convicto do PCP, defensor acérrimo das suas idéias, com créditos e valor já reconhecido no seu partido. Vão ouvir falar dele!
Se tudo correr como penso, vou continuar por aqui. Com a família. A ler, a correr, a conviver, a dar uns mergulhos no Guadiana, a fazer a minha sesta à Mário Soares, a beber o café no Fatana (em S. João) ou no Guadiana (ou outro, em Mértola), a comprar os excelentes Queijos do Jacob (na freguesia vizinha de S. Sebastião dos Carros), a acordar com o chilrear dos pássaros e os tiros dos caçadores, sempre com esta gente, a que já foi e a que está, ainda, por aqui.
Utilizando algumas das palavras do malogrado Luís Aleluia, vamos caminhando, tentando ter lentes, a continuar a aprender e fazer com que a nossa memória possa ser pedaços que se colam no coração dos outros.

































