Era uma vez uma senhora que tinha um lugar na praça (hoje, Mercado Municipal), no Montijo, conhecida por Ti Virgínia. Na altura, por volta dos anos sessenta do século passado, os fornecedores de frutas e hortaliças para o mercado chegavam por volta das sete, sete e meia da manhã, mas a Ti Virgínia nunca chegava depois das seis, para conseguir as frutas de melhor qualidade.
Lembro-me de algumas vendedoras,
(a Ana Rosa, a Eugénia, a Maria Luísa, a Augusta, que vendia frangos,...)
até porque eu era visita obrigatória de todas estas e de muitas mais, pelo menos uma vez por semana. A Ti Virgínia, a minha avó, dava-me a mão e ia mostrar-me a quase toda a praça, com grande orgulho e entusiasmo! Era uma alegria! O neto da Ti Virgínia era lá famoso!
Com a minha mãe, ia muitas vezes à praça e recebia a semanada, penso que de cinco escudos, que foi aumentando e chegou a vinte. Com mais alguns anitos, comecei a ir ajudar a minha avó a pesar, a fazer trocos, a fazer caldo verde.
(muito gostava eu de dar à manivela daquela máquina!)
Foram bons anos!
Por hábito, quando recebia o resultado dos exercícios (como se dizia na altura), que fazia na escola primária, na turma do Professor Cortiço, ia logo dar a notícia à Ti Virgínia, principalmente, quando eram positivas, claro. Um dia, vim da escola direto à praça e dei notícia de um descuido: xi-xi nas calças! Como morava perto da praça, a minha avó levou-me a casa e, cá de baixo da escada, disse à minha mãe : "olha, Maria, o teu filho teve um bom!", isto acompanhado de grandes gargalhadas. Uma alegria!
Mas isto tudo
(desviei-me do objetivo desta publicação)
para dizer que, a praça, tal como hoje, também tinha talhos, um deles era do "Zé do Talho", ou o "Zé do Vau", com quem a minha avó também tinha muito boa relação. O "Zé do Vau" tinha um filho, por quem a Ti Virgínia tinha um grande carinho, uma grande admiração, andava a estudar, andava a tirar um curso - o João Vau, o João Francisco de Oliveira Vau.
Bom, de facto, a Ti Virgínia adorava o João Vau e ele também tinha um grande carinho por ela, e o João Vau, o filho do "Zé do Vau", tinha de ser padrinho do neto. E foi! Padrinho de batismo,
(na altura, por influência da minha titi Júlia, todos tínhamos de ser católicos; depois, mais tarde, comecei a faltar à missa para ir ver o futebol, a titi não gostou, mas o meu pai não me obrigou a ir à missa, e acabou assim)
dizia, padrinho de batismo e depois, padrinho de casamento, já a minha avó não estava entre nós. "Muito gostaria a Ti Virgínia de ter podido ver!", dizia-me ele.
E o João Vau assumiu, por inteiro, a sua função de padrinho. Professor de profissão, acompanhou toda a minha fase escolar, com um contínuo apoio, muito importante para a sua conclusão. Depois dos meus pais, não tenho dúvidas em dizer que foi quem mais me influenciou em tudo o que fui fazendo na vida, como aluno e, depois, como colega professor. As corridas e o gosto pelos livros foram também obra dele!
(o João era amante do jogging, tem muitos quilómetros nas pernas, e um amante de livros, como ainda é hoje, um amante do conhecimento. Com muita pena minha, nunca fiz uma corrida com ele, já que um acidente não o deixou continuar, mas não me esqueço das nossas visitas à Livraria Escolar Editora, na Rua da Escola Politécnica, junto à antiga Faculdade de Ciências de Lisboa (FCL), sempre à procura das últimas novidades da ciência)
Todos sabem bem de quem falo, do Dr. João Vau, professor que lecionou muitos anos na atual Escola Secundária Jorge Peixinho (ESJP).
(antes, Escola Industrial e Comercial de Montijo, Escola Secundária de Montijo e Escola Secundária Nº 1 de Montijo)
Casado com a minha madrinha Silvina Vau, também docente aposentada, e com dois filhos, o Nuno e a Sílvia, médico e bióloga investigadora, ambos doutorados. Destacando alguns dados do seu vasto currículo, foi o primeiro docente efetivo desta sua escola proveniente de Exame de Estado perante um júri nacional onde, logo após o 25 de Abril de 1974, foi Diretor da então Escola Industrial e Comercial de Montijo. Na ESJP, muitos outros cargos se seguiram. Em parceria com o Professor Doutor Galopim de Carvalho, que orientava a componente científica, foi Orientador de Estágio do Ramo Educacional da FCL, durante 14 anos, na altura, o único núcleo de estágio de Geologia no país.
Em 1980, com os Professores Galopim de Carvalho, Gil Pereira, José Brandão, Perdigão Silva e Pires Batista, foi co-autor do primeiro manual escolar de Geologia, para o 12º ano do ensino secundário. Em 1984, foi co-autor da prova de exame nacional do 12º ano, de Geologia. Pertenceu ao grupo restrito de professores do ensino secundário convidados para as conferências, organizadas pela Fundação Calouste Gulbenkian, a propósito da Conferência do Rio,
(também conhecida como Eco-92, Cúpula da Terra, Cimeira do Verão, Conferência do Rio de Janeiro e Rio 92, foi uma conferência de chefes de estado organizada pelas Nações Unidas e realizada de 3 a 14 de junho de 1992 na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil)
Ao longo dos seus 44 anos de serviço, em escolas do Barreiro, Setúbal e Montijo, tinha com os seus muitos alunos e estagiários uma excelente relação, uma boa disposição permanente e um amor à sabedoria, que lhes transmitia sempre com grande saber, entusiasmo e dedicação.
(o meu colega e grande amigo Zé Justo, também, tal como eu, professor recentemente aposentado, integrou também comigo um grupo de estágio orientado pelo Professor João Vau)
dizia que o Dr. José Mata Justo apresentou, nessa altura, uma sugestão para atribuição da medalha de ouro da cidade de Montijo ao Professor João Francisco de Oliveira Vau. Recentemente, após a excelente conferência na Universidade Sénior que atrás referi, lamentou que ainda não tivesse sido atribuída essa merecida distinção.
Seria merecido! Também muito me alegrava que isso acontecesse!
João Vau, uma vida ao serviço do conhecimento, do ensino, da Educação do Montijo!
Bem haja Dr. João Vau! Bem haja padrinho! Obrigado.
PS - Encontrei-o, ontem, em casa, com 82 anos, com o entusiasmo de sempre, a ler um livro do Professor Carlos Teixeira, eminente professor de Geologia! Para saber mais! Sempre!






















