quarta-feira, 5 de julho de 2023

A vida por um fio

O segundo período do ano letivo de 2019-2020 tinha começado a 6 de janeiro, um pouco mais tarde que o habitual. Estamos, por isso, ainda em fase de aquecimento.

10 de janeiro de 2020, sexta-feira

Dia da semana sem componente letiva. Levanto-me cedo para ir ao ginásio. Às oito horas já estou no Be-Fit, no Montijo Retail Park. Bom exercício, uma boa prestação na passadeira e noutros aparelhos. Com 63 anos, não está nada mal. Sinto-me bem, em forma. Um bom banho, revigorante, estou como novo. Já não como antes, claro. A fazer corridas regulares, talvez a partir dos 50, aos 60 comecei a notar uma quebra, deixei de evoluir nas performances. Normal.

09H00M, em casa. Está um dia de sol, este janeiro de 2020 foi um mês quente e seco, coisa que há uns anos atrás não acontecia. Sento-me ao computador para preparar a próxima semana de aulas. O segundo período letivo é longo e exigente e tenho uma turma do 11º ano de Biologia e Geologia, com exame nacional no fim do ano. Uma boa turma, espero bons resultados.

09H30M, uma dor no peito, como já me tinha acontecido várias vezes, passageiras, nada de anormal, dores nervosas, como dizemos. Mas, desta vez, não estava a ser bem assim. A dor persistia, um aperto no peito que se avolumava. Aguentei, mudei de posição, deitei-me, mas nada resultava. A dor crescia e senti uma dormência no braço esquerdo. Comecei a pensar o pior - coração! Já não tinha muitas dúvidas.

Liguei ao Filipe.

-- Estou com uma dor no peito já há algum tempo e não passa.

-- Estás a brincar, pai?

-- Não, não estou.

-- Vou já para aí.

Liguei, depois, à minha mulher e disse que já tinha chamado o Filipe.

Poucos minutos depois, estamos a caminho do Hospital de Santa Maria (HSM), a melhor unidade para estes casos, diz a experiência do Filipe, bombeiro sapador em Lisboa. 160 km/h na Ponte Vaso da Gama. O Honda Type R permitia muito mais, mas é melhor ter juízo, para não morrermos todos da cura. A dor persistia, aumentava, com a dormência no braço.

Às 11H28M dei entrada na urgência e, com alguma dificuldade, consegui identificar-me e informar dos sintomas. De imediato, entrei na triagem - laranja - muito urgente. Atendimento imediato.

Segue-se uma parafernália de exames, eletrocardiogramas, questionários, análises, monitorização permanente e uma surpresa - o André Mafra, meu ex-aluno nos 10º e 11º anos, é enfermeiro da urgência e faz-me uma assistência com um profissionalismo exemplar, como, aliás, todos os médicos, enfermeiros e profissionais de saúde que me rodearam.

— Dispa-se e deite-se na maca, professor. Não o quero muito tempo em pé.

O bombeiro sapador Filipe Evangelista apareceu por lá. Outra das enfermeiras era também do Montijo, com um filho a estudar na Escola Secundária Jorge Peixinho (ESJP) e, sabendo que eu era lá professor, teceu os seus elogios ao diretor de turma Marco Ferradini, colega de Matemática que bem conhecia. Dizer que me senti em casa é exagerado, mas não faltou muito. As dores continuavam, talvez um pouco mais aliviadas.

Fios que me ligam a máquinas, monitores, sons, bips intermitentes, tudo à minha volta são máquinas, monitores, médicos, enfermeiros e operacionais. Mantêm-me monitorizado na sala de reanimações.

(soube depois que era aí que me encontrava)

Entre outra medicação, morfina, que me alivia a dor. O André recebe resultados e olha os monitores:

— Isto foi mesmo a sério, professor. Enfarte agudo de miocárdio.

Tendo histórico de policitémia, faço flebotomia.

(a flebotomia é o processo de fazer uma punção numa veia, geralmente no braço, com uma cânula, com a finalidade de tirar sangue)

17H00M, mais estabilizado, sou transferido para o serviço de observação da urgência central - cuidados intensivos.

Grande sala, com um balcão central com computadores, onde médicos e enfermeiros fazem os seus registos, fazem as suas pesquisas, os seus diagnósticos.

À volta, camas com equipamentos de monitorização cardíaca, oxímetros e outras funções vitais. Bips intermitentes ou contínuos, quando algum doente precisa de atenção imediata.

Já ao fim da tarde, permitem uma visita relâmpago da mulher e do filho. Muito bom.

Com os fios de monitorização cardíaca, oximetro, medição de temperatura, mobilidade muito reduzida, dores no peito (embora não insuportáveis), visita frequente de enfermeiros e médicos, alguns colegas mais agitados. Não se dorme, ou dorme-se muito pouco, a curtos espaços de tempo, quando o sono é mais forte. O intenso movimento de médicos e enfermeiros é permanente, 24 horas por dia.

11 de janeiro de 2020, sábado

De manhã, um banho, ou algo parecido. Duas enfermeiras (?) passam-me compressas com sabão pelo corpo. Viram-me para à esquerda, para a direita, para terem acesso às costas. Limpam-me, depois.

A mesma monitorização, constantemente. Mais uma rápida visita da família.

10H00M, sou transportado para uma sala para fazer cateterismo.

(realizado pela Cardiologia de Intervenção, o cateterismo é um exame que consiste na introdução de um cateter (tubo oco) dentro de um vaso sanguíneo, nomeadamente da artéria femoral (na virilha) ou da artéria radial (no antebraço), através de uma punção. Esse tubo é então conduzido até ao coração. O doente pode estar acordado durante o exame, sendo feita anestesia apenas no local da punção)

Sala quase completamente ocupada pelos equipamentos e pela maca. Monitor enorme, que permite visualizar todo o cateterismo - o coração e o seu batimento e o percurso do cateter, pela coronária, até ao interior do coração. Estou acordado, o cateter é introduzido na virilha e penetra na artéria femural. Dói. Acompanho toda a operação.

A artéria coronária está parcialmente obstruída. É feita uma angioplastia e colocado de um stent.

(na angioplastia coronária, os médicos introduzem um tubo muito fino (cateter), com um balão na extremidade, dentro da artéria que está obstruída, dilatando-a de forma a que seja possível retomar o fluxo de sangue. Por vezes, é também implantada uma rede ou malha metálica (stent ou endoprótese) para garantir que a artéria se mantém aberta para deixar fluir o sangue)

Volto aos cuidados intensivos da urgência central. As dores, agora, são fortes e opressivas. Talvez ainda mais fortes que na altura do enfarte. Os enfermeiros dizem que, depois do cateterismo, é normal. A medicação (morfina?) pouco adianta. Dizem-me que irá aliviando, mas a evolução foi muito lenta. Momentos difíceis.

17H00M, alta para transferência interna para o sétimo andar, serviço de cardiologia. O pior estaria passado. No quarto, fui encontrar três colegas de doença: Janino, José Pereira e Nuno Santos. Bons colegas, que não vou esquecer. O Janino, menos conversador, mais reservado, mais aberto nos últimos dias.

11.01.2020, 19H:43M, serviço de cardiologia

Não posso esquecer um momento hilariante (que, no meio disto tudo, também há), quando o Janino, que gostava muito de usar o mecanismo de elevação da cama do hospital, não sei como o fez mas, quando demos por isso, estava o Janino deitado, mas quase na posição vertical e quase a bater no teto!

Depois de instalado e estabilizado no quarto, peço o telemóvel do Nuno para informar a minha mulher que já estava no serviço de cardiologia. Passado pouco tempo, lá estava ela com o Filipe, na visita. Eram boas notícias.

Já com o telemóvel, recebo uma mensagem da minha nora Daniela:

— Gosto muito de si.

(a Daniela é uma excelente nora, de quem gosto muito e sei que também gosta de mim, mas dizer-me isso cara a cara, não é dessas coisas. Acho que ela lá pensou, “deixa-me cá dizer-lhe, não vá ser tarde demais”)

12 de janeiro de 2020, domingo

As dores eram suportáveis, pequeno-almoço na cama (um luxo). Com fios que ligavam o tórax a uma caixa que, por wi-fi, levava todos os dados da atividade cardíaca até ao sistema hospitalar - monitores nas salas de médicos e enfermeiros e nos corredores; com estas coisas no corpo e algumas dores, o banho não era fácil. Foi acontecendo, o melhor possível.

A propósito de refeições, um dia, ainda experimentei o jantar servido pelo hospital, mas foi o último. De facto, com muito má qualidade, foi o único aspecto negativo que registei nesta minha estada no HSM. Tudo resolvido com as refeições que, diariamente, me traziam de casa.

Entretanto, fomos tendo visitas de estudantes de medicina que nos faziam um interrogatório sobre as nossas história e a situação clínica. Perguntavam tudo, tudo! Mais de uma hora para cada entrevista!

(a partir da terceira entrevista, talvez tenha deixado de ser tão colaborativo como nas primeiras vezes. De facto, por muito compreensivos que fossemos, e foi com muito agrado que respondi aos dois primeiros estudantes, não estávamos na melhor situação para 4 ou 5 horas de entrevistas. Não os estudantes, mas quem requer questionários com estas dimensões, deveria ter este facto em atenção)

13 de janeiro de 2020, segunda-feira

Tudo parecia correr bem e tinha a perspetiva de não ficar internado muitos mais dias.

Era tempo de informar a minha escola, sobre o que se estava a passar e que não iria estar lá na segunda-feira. Enviei mensagem para o Nuno Martins, membro da direção e meu colega de grupo disciplinar.

— Olá, Nuno. Tive um enfarte agudo de miocárdio, estou no HSM. Segunda-feira não vou. Está tudo a correr bem. Peço que mandes avisar os alunos. Um abraço.

— Bela maneira de começar o ano! As melhoras. Não te preocupes.

O caso passou a ser conhecido na ESJP e comecei a receber mensagens de colegas, que sempre nos vão animando. Sinal de agradável reconhecimento e amizade.

O horário de visitas era das 14 às 20 horas e todos os dias recebíamos os nossos familiares.

Ao fim da tarde, já depois das visitas, começo a ter algumas tonturas e má disposição simultânea. Coisa passageira, mas que se ia repetindo. A partir de certa altura, a seguir a cada episódio que referi, recebo visita da enfermeira a perguntar se estou bem, dizia que já tinha passado e explicava os sintomas. Alguma coisa estava a acontecer.

Médicos e enfermeiros vieram explicar-me que estava a ter pausas cardíacas. Pausas… designação simpática para dizer que o coração parava por alguns segundos. Estavam a avaliar a possibilidade de me implantarem um pacemaker, mas a lista de espera era grande, poderia demorar alguns dias.

(o pacemaker é um pequeno aparelho que é colocado debaixo da pele para controlar e promover os batimentos cardíacos. Geralmente tem duas partes, o gerador (a caixa do pacemaker) e os eletrocateteres (pequenos cabos eléctricos que fazem a ligação ao coração. Existem muitos motivos para a implantação de um pacemaker. O envelhecer natural do sistema eléctrico do coração com a falhas da condução eléctrica é o principal motivo. Outros motivos para a implantação de um pacemaker incluem arritmias (ritmos cardíacos anómalos) com ritmo muito rápido ou lento, alterações genéticas e intervenções em válvulas cardíacas)

Veio também a notícia de que estava proibido de ir ao WC sozinho. A qualquer hora do dia ou da noite, deveria chamar a auxiliar para me levar em cadeira de rodas, mesmo até ao interior do WC, sempre vigiado. Perigo de cair.

Liguei ao Filipe. Ele apercebeu-se que não estava bem. Pedi-lhe para não dizer nada à mãe.

O ânimo que sempre tive, caiu. Pensamos na família, pensamos nos netos e no tempo que ainda nos falta viver com eles. Pensamos no que ainda queremos fazer. A perspetiva de já não sair do hospital tão cedo. Confesso que nunca pensei na morte. A morte é aquele momento. Mais importante é a qualidade do tempo que passa, até lá chegar.

("o que extingue a vida e os seus sinais, não é a morte, mas o esquecimento. A diferença entre a morte e a vida é essa." Cadernos de Lanzarote - Diário III, José Saramago)

Tive medo de ficar incapaz de viver, tive medo que o meu corpo se esquecesse de viver. Mas nunca pensei em morrer. Uma noite inteira a pensar nisto. As horas não passavam

(a noite… a noite é terrível para estes pensamentos. O tempo que não passa, o silêncio que promove, que facilita o pensamento. Para a relatividade e espaço-tempo de Einstein, o tempo pode até correr para a frente ou para trás. Nestas noites, até parece (?) que o tempo pára ou retarda, de facto)

Com companhia, fui uma vez ao WC.

14 de janeiro de 2020, terça-feira

A noite já foi, é outro dia.

Com mais frequência, as pausas cardíacas continuavam. Pouco depois das 14 horas, o Filipe e a Beta vêm à visita. Há visitas também para os meus colegas de quarto. Conversamos. O Filipe, entretanto, sai do quarto. Passado algum tempo, entra a correr e em pânico:

— Pai, pai, estás bem?

Tinha acontecido a maior pausa cardíaca até ao momento e ele, no monitor do corredor, tinha visto o traçado da minha atividade cardíaca ficar convertido numa linha reta.Piiiiiiiiii.

Passado pouco tempo, recebo a visita de duas médicas. Com caráter de urgência, saindo da longa lista de espera, vão implantar-me um pacemaker.

Volto passada uma hora, talvez. O alojamento da caixa do pacemaker é dolorosa. Está feito. Junto ao ombro esquerdo, tenho a máquina a trabalhar, afinada para os 60 bpm. Se tudo correr bem, saio no dia seguinte.

15.01.2020, 03H36M, após colocação do pacemaker

A noite não foi fácil. Com gelo em cima, fios ligados, sem me poder mexer.

(o tempo outra vez a ser mais lento)

15 de janeiro de 2020, quarta-feira

A meio da manhã, visita da médica e da enfermeira. A alta vai acontecer. Fui o último a chegar ao quarto e vou ser o primeiro a sair. O José Pereira sairia também nesse dia. Era bom que saíssem todos. Fiquei com essa mágoa. Sairiam depois, penso que estão bem. Um grande abraço para eles.  

15.01.2020, 13H15M, após a alta.
A cama do Janino, eu, o Janino, o José Pereira e o Nuno Santos

A vida por um fio, que resistiu. Uma nova vida.

Álvaro de Campos disse que "a verdadeira vida é a que sonhamos na infância e que continuamos sonhando, adultos."

Com pacemaker, stent... e lente intraocular, sou um pouco cyborg,

(já somos muitos, seremos cada vez mais)

mas estou vivo, sonhei e continuo a sonhar. 

Ao meio-dia tenho alta.

15.01.2020, 16H:37M, primeira foto da nova vida, com a neta Filipa
(o Rafael estava na escola)

(registo o profissionalismo de todos os trabalhadores da saúde que, me trataram de uma forma exemplar em todo o meu internamento. Disto dei notícia à administração do HSM. O meu ex-aluno, Enfermeiro André Mafra, foi de um carinho, uma atenção, um profissionalismo inexcedíveis, foi o primeiro a atender-me na sala de reanimações da urgência central, visitou-me e manteve a sua preocupação nos cuidados intensivos e no serviço de cardiologia. Muito para além do que seria a sua obrigação profissional. Dois meses depois, chegou a Covid-19. Como seria? Não poderia ser igual. Inevitávelmente)

Apresentei-me ao serviço, na ESJP, em 10 de fevereiro de 2020, exatamente um mês depois, e cinco dias antes de terminar o período de baixa do atestado médico.


domingo, 2 de julho de 2023

Um dia diferente

Os dias correm, correm muito depressa. Quando damos por isso, já passou. Já passou um dia, já passou uma semana, já passou um ano, já passaram dez anos, já passaram vinte anos... na minha última publicação (Vasco Rodrigues... vinte anos!), falei de acontecimentos de há vinte anos. Parece que foi ontem!

Nem sempre foi assim, quando somos jovens o tempo custa a passar, queremos acelerar, temos pressa. Por vezes ponho-me a pensar que, de facto, o tempo hoje passa mais depressa, que não é apenas a nossa perceção.

(Albert Einstein, na sua Teoria da Relatividade, introduziu o conceito espaço-tempo como um conjunto, como uma única variedade de quatro dimensões, tratando o tempo como uma dimensão adicional às três dimensões espaciais, inseparável destas, já que a passagem do tempo - velocidade do objeto -  não é sempre igual, depende da velocidade do observador. Einstein contraria, assim, a mecânica clássica de Isaac Newton, em que o tempo é considerado uma unidade de medida universal. No nosso dia a dia, é esta ainda a idéia que prevalece. Isto para dizer que, tal como Einstein contrariou a teoria de Newton, quem sabe, alguém, um dia, me venha a dar razão! Quem sabe)


Para além dos dias ditos comuns, rotineiros, há dias que, sem que na altura nos seja percetível, serão insequecíveis. Ficam marcados na nossa história.


No âmbito da Avaliação de Desempenho Docente, a Marta, Diretora do Cenforma - Centro de Formação de Professores de Montijo e Alcochete, nomeou-me avaliador externo de duas colegas docentes da Escola Básica 2,3 de Pegões, escola sede do Agrupamento de Escolas de Pegões, Canha e Sto. Isidro.

(recordando, fui o primeiro diretor do Cenforma, entre 1993 e 1995, a minha colega e amiga Maria Aurélia Marcelino foi a autora do seu primeiro logótipo, escolhido por concurso; saudades da Maria Aurélia)

(Foi recentemente nomeado o novo diretor do Cenforma, Custódio Lagartixa, colega e amigo a quem desejo as maiores felicidades e sucessos)

24 de fevereiro de 2022, 06H30M, levantar. Acordar já foi há uma hora atrás, como sempre acontece quando saio da rotina. Pequeno-almoço e a caminho de Pegões. Levei o Type R.

(o Type R é um Honda Civic, uma vaidosice minha. Um carro com performences a mais para a minha idade, mas não para a idade do Filipe. Uma sociedade familiar)

7H45M, Escola Básica 2,3 de Pegões. Há muito que não visitava esta escola. Boas recordações.

(a Escola Básica 2,3 de Pegões foi inaugurada em 1997, durante o exercício das minhas funções de Coordenador do Centro da Área Educativa da Península de Setúbal, tendo eu indicado o meu colega e amigo Flamino Viola para Presidente da Comissão Instaladora; o Flamino levou consigo outro colega e amigo, o Carlos Romão, e a colega Fátima Vilela, com quem tenho menos contactos)

Recebido pela Diretora Mavilde Albino, fui assistir à primeira aula da colega Paula. 8º ano de Ciências Naturais. Recursos geológicos - proteção e conservação da natureza - foi o tema tratado, com incidência especial no impacte ambiental das pedreiras. Uma boa aula.

10H:00M, no Type R, o iogurte do meio da manhã. Ligo ao Filipe.

-- Tudo bem?
-- O Rafael está com Covid. Está aqui deitado no sofá. Agora devemos ter todos.
-- Pois, provavelmente. Eu, até ver, não tenho sintomas nenhuns.
-- Aqui em casa, por enquanto, é só ele, mas temos de ir fazer teste. Não sei se já sabes, mas a Rússia invadiu a Ucrânia, estão em guerra.
-- Não sabia! Eles andavam a ameaçar.
(Às primeiras horas de ontem, o poderio militar russo foi projectado nas três frentes onde, durante meses, se acumularam mais de 150 mil soldados, equipamento, artilharia e material logístico. Através do Donbass, no Leste, em apoio às forças separatistas, pelo norte, por via da Bielorrússia, e pelo sul, a partir da Crimeia, a península anexada por Moscovo em 2014. A ofensiva foi lançada por terra, mar e ar. Público, 25.02.2022)
E já lá vão dezasseis meses! O impensável aconteceu! A guerra regressou à Europa, numa das maiores ofensivas no continente, desde a II Guerra Mundial! Pela mão de Putin, que encarna a vingança daqueles que não apoiaram a queda da URSS e a sua metamorfose em democracia.
(Kiev viveu mais uma noite agitada, com bombardeamentos russos sobre a capital a fazerem disparar as sirenes toda a noite. Os estilhaços de um ataque com drone provocaram um ferido, mas todas as ameças foram destruídas pelas antiaéreas ucranianas, dizem as autoridades locais. Volodymyr Zelensky disse aos jornalistas que pelo menos 21 mil soldados do Grupo Wagner já perderam a vida no leste da Ucrânia, número impossível de confirmar. Certo é que o império de propaganda do chefe dos mercenários, Yevgeny Prigozhin, vai encerrar, mais um castigo pela tentativa falhada de motim do passado dia 24 de junho. Expresso on-line, 02.07.2023)
11H35M, volto à mesma sala de aula, para obervação da aula da Lídia. 8º ano de Ciências Naturais. Ecossistemas - fluxos de energia e ciclos de matéria, é o tema. Outra boa aula.

13H:20M, volto ao Type R para regressar ao Montijo. Era o fim do turno da manhã, alunos de saída, outros a entrar. Muitos em volta do carro. Pedi licença para entrar.

-- Grande máquina! O carro é seu, professor?
-- É verdade.
-- Fixe, professor. Grande máquina!

Era claro que, para além de apreciarem o Type R, queriam dizer que eu já não tinha idade para aquilo. Devia ter juízo. Concordo.

Chegado a casa, o neto Rafael prostrado no sofá. De tarde, os pais foram fazer o teste ao SARS Cov-2 - positivo. Eu e a minha mulher fizemos no dia seguinte, de manhã - positivo. Todos de quarentena, durante sete dias. No fim dos sete dias, foi a vez da neta Filipa. Ficámos todos bem. Pensamos nós.

O regresso à escola de Pegões. A guerra na Europa. Covid-19. Um dia diferente. De todos os dias da nossa vida, só alguns ficam a fazer parte da nossa história.

Como diz Saramago em Cadernos de Lanzarote - Diário II,
Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade talvez não mereçamos existir.

domingo, 25 de junho de 2023

Vasco Rodrigues... vinte anos!

A freguesia de S. João dos Caldeireiros pertence ao concelho de Mértola, distrito de Beja, e está situada junto da margem direita da ribeira de Oeiras, afluente da margem direita do Guadiana, no extremo Noroeste do concelho. Esta freguesia tem 103,44 km2 e 442 habitantes (censos de 2021, -22,1% que em 2011), a densidade populacional é de 4,3 hab/km2. O topónimo composto "S. João dos Caldeireiros" alude, no segundo elemento, ao fabrico de caldeiras no local. S. João é uma referência ao padroeiro da freguesia, S. João Batista.

Vasco Rodrigues é um dos lugares desta freguesia, que terá, atualmente, cerca de 10 habitantes permanentes, podendo atingir um total de 25, nalgumas ocasiões. A cerca de 2,5 km da sede da freguesia, situa-se em propriedades adquiridas por Matias Palma, logo após o 25 de abril de 1974, sendo Neto Valente o atual proprietário.

Vasco Rodrigues está junto à antiga Herdade da Váscua, onde atualmente se identifica um outro núcleo populacional. Hoje, estes dois pequenos aglomerados populacionais (Vasco Rodrigues e Váscua) são identificados pela primeira ou segunda designação, como um só, diferenciando-se por "monte de baixo e "monte de cima", respetivamente, tendo em conta a cota mais baixa da primeira.

A origem do topónimo "Vasco Rodrigues" é desconhecida, havendo indicações que o primeiro poderá ter sido Vasco Roiz (origem espanhola?), remontando ao século XVIII.

(foi consultado o Arquivo Municipal de Mértola e a Junta de Freguesia de S. João dos Caldeireiros; em amável conversa com a Sra. Presidente desta autarquia, foram-nos dadas algumas informações aqui partilhadas)

Em finais de 2002, a convite do meu vizinho Filipe, de lá natural, visitei o monte, adquiri as ruínas de uma casa, que reconstruí e, em junho de 2003, há precisamente vinte anos, inaugurei as instalações. 20 anos!

Com Filipe, em Vasco Rodrigues

Lugar simpático, onde preside o sossego, o silêncio só violado pelo chilrear dos pássaros e uma população maioritariamente idosa, sabedora da vida árdua do campo, com ricas histórias para contar. Gostei.

José Raimundo, Cipriano e o José Tomé eram figuras bem conhecidas e referências de Vasco Rodrigues.

(quando a eles se referiam, respeitosamente, era sempre utilizado o Ti, abreviatura de Tio - Ti Zé Raimundo, Ti Cipriano, Ti Zé Tomé)

Com José Manuel Raimundo tive boas conversas, ricas histórias do seu tempo de encarregado de António Champalimaud, dono de muitos hectares do baixo Alentejo, onde Raimundo acompanhou diariamente o "menino" (filho de Champalimaud), trabalhava e orientava outros homens. Tratava-me, respeitosamente, por senhor professor, havia uma grande amizade e guardo, religiosamente, um cachimbo que me ofereceu.

("cachumbo", como ele dizia)

(Não posso deixar de fazer referência ao legado de António Champalimaud, a Fundação Champalimaud, instituição de excelência e referência mundial no tratamento e investigação em saúde, de que sou utente)

                                           
                                 Com José Raimundo e o meu sogro                                   Cipriano e José Raimundo

O Ti Zé Raimundo "acompanhou" a obra de restauração das minhas ruínas, que nem sempre decorriam da forma como ele achava que devia ser; orientava, também, a queima das ervas da cerca, já que as debilidade dos seus 92 anos não permitiam a sua participação mais ativa. Raivoso, na impossibilidade de se dobrar como queria, chegou a ajoelhar-se para dar a sua ajuda. Recordo-o com saudades.

(José Manuel Raimundo (1911-2005) foi encarregado de António Champalimaud durante cerca de vinte anos e, hoje, dá nome a uma rua de Vasco Rodrigues, onde viveu com as suas duas filhas)

Rua Tio José Raimundo, com a sua casa, ao fundo, a azul

Com Cipriano (mais reservado), tive menos convivência, mas com José Tomé também tive grande proximidade, sendo sempre companhia nas duas ou três vezes por ano que lá passava uns tempos. Não faltavam os ovos, as carnes ou o toucinho com que sempre me presenteava, ele e a sua esposa Catarina.

Não esqueço o dia em que me levantei às cinco da manhã para amassar o pão, feito depois pela Conceição (irmã do Filipe) no forno comunitário do monte. O pão da Conceição não dá para esquecer. Uma delícia!

(Umbelina, Ilda, Cipriano e sua esposa Glória, Tomé, Raimundo e uma das filhas, já não estão entre nós; Conceição e a sua mana estão no Algarve; Catarina, esposa de Tomé, está num lar)

Agora, com mais tempo, penso fazer estadas maiores e mais frequentes em Vasco Rodrigues, fazer companhia às aves (águias e outras espécies), aos coelhos, às perdizes, que saltam à nossa frente, nas caminhadas ou corridas; nas barragens, a companhia das rãs, dos patos e dos gansos, ameaçadores quando a nossa presença é próxima demais; companhia dos gamos, lá longe, nos campos; companhia dos linces, que nunca os vemos, companhia dos peixes do Guadiana. Excelentes espaços de leitura, desporto, lazer.

                        Filipe, a minha mulher, os meus sogros e Eufrázia                            Com o Beto

Mas também a companhia das pessoas do monte, claro. Poucos, mas bons. Excelentes vizinhos. Sempre prontos a colaborar, a conversar, a trocar experiências. A Dona Eufrásia, filha do Ti Zé Raimundo, é, hoje, a matriarca do lugar, uma amizade desde os primeiros momentos de 2003, a referência do monte. O Beto, a Cláudia e a filha, o senhor Vitor e a esposa (habitantes mais recentes, aposentados que escolheram este local para viver), o César, a Ana e o Lucas, filho do César.

 
                                                   Com o César                                                                                O Lucas

O César (o vizinho da frente) é bisneto da Ti Ilda, que ainda conheci, mecânico e trabalhador das minas de Neves-Corvo. Trabalhador, divertido, um amigo. O Lucas é o menino de 3 ou 4 anos que, com as suas pernas arqueadas, vi a correr o monte a grande velocidade. Hoje, é o jovem estudante, que trata da agricultura da cerca e da sua criação de galinhas, culturalmente enraizado no seu Alentejo, militante convicto do PCP, defensor acérrimo das suas idéias, com créditos e valor já reconhecido no seu partido. Vão ouvir falar dele!

Se tudo correr como penso, vou continuar por aqui. Com a família. A ler, a correr, a conviver, a dar uns mergulhos no Guadiana, a fazer a minha sesta à Mário Soares, a beber o café no Fatana (em S. João) ou no Guadiana (ou outro, em Mértola), a comprar os excelentes Queijos do Jacob (na freguesia vizinha de S. Sebastião dos Carros), a acordar com o chilrear dos pássaros e os tiros dos caçadores, sempre com esta gente, a que já foi e a que está, ainda, por aqui.

Utilizando algumas das palavras do malogrado Luís Aleluia, vamos caminhando, tentando ter lentes, a continuar a aprender e fazer com que a nossa memória possa ser pedaços que se colam no coração dos outros.

terça-feira, 20 de junho de 2023

A Idade do Fogo

O fogo é hoje uma preocupação. Lembramo-nos mais dele no Verão, quando o risco é maior e infelizmente pouco, no Outono, Inverno e Primavera, tempo de prevenção. Mas nem sempre foi assim.

Stephen J. Pyne, em Piroceno,

(edição de Livros Zigurate, editora muito recente que saúdo, pela qualidade dos seus 12 livros já editados)

identifica três fogos: o fogo-primeiro, o fogo da natureza, surgido há cerca de 420 milhões de anos, após surgirem as primeiras plantas terrestres; o fogo-segundo, ateado e alimentado por humanos, terá surgido após a última era glacial, há cerca de 2,5 milhões de anos; o fogo-terceiro, atual e praticamente sem limitações, que afeta o clima, os ecossistemas e até a anterior (boa) relação do Homem com o fogo.

De facto, o fogo-segundo é o resultado da domesticação do fogo pelo Homem, colocando-o ao seu serviço, na cozedura de alimentos, na iluminação e no aquecimento. Não mais se separaram, passando o fogo a ser imprescindível para a vida humana.

O fogo-terceiro desagregou os humanos do fogo, passando a ser possível a vida dos primeiros sem o segundo, sendo que este deixou de se desenvolver sem o primeiro. Até certa altura, o fogo-terceiro era uma ferramenta de produção de energia bruta e havia como que uma convivência entre os três fogos. Até ao início do último século.

A auto-regulação deste sistema a três vai dando lugar a algum domínio do fogo, que atinge um pico de difícil retrocesso, com predominância das queimadas descontroladas relativamente às que eram feitas sob controlo, demasiada combustão e, progressivamente, num sistema de feedback positivo, com a ajuda das alterações climáticas com aquecimento global, passando de fogo cooperante a fogo violento e agressivo.

Inconscientemente, criámos a Idade do Fogo!

Enquanto o fogo-segundo dominou o fogo-primeiro, o fogo-terceiro, de exclusiva obra humana, foi o motor da transformação da Terra, a fonte de energia responsável pelo Antropoceno. Imparável! Evitar alguns fogos na agricultura pode resultar na utilização de produtos químicos poluentes e bastante prejudiciais à saúde, nas áreas naturais ou selvagens pode favorecer queimadas prejudiciais e a utilização excessiva de combustíveis fósseis favorece os incêndios florestais.

Em Portugal, a sul do Tejo, pese embora o contributo do Homem e dos herbívoros, mantendo a vegetação mais rasteira e pouco arbustiva, as condições meteorológicas são favoráveis a grandes incêndios; a norte, mais acidentado e com menos gestão de vegetação, em dias mais quentes, acontece o fogo descontrolado, muitas vezes por mão criminosa ou negligência humana.

As previsões dizem que, no pior cenário, devem arder em Portugal continental cerca de 227 mil hectares, menos de metade da área ardida em 2017; na melhor hipótese, a área ardida poderá ficar nos 20 mil hectares, seis vezes inferior à média da década de 2012-2021.

A Força Aérea prevê ter disponíveis 72 aeronaves, equipas multidisciplinares especializadas para dar melhor apoio à decisão mais próxima do palco de operações e tornar mais eficiente o ataque inicial, atualização dos manuais das Forças Armadas que pilotam meios aéreos e formação sobre o comportamento do fogo, para evitar que a sua aproximação incremente a combustão. O maior orçamento de sempre - 52,7 milhões de euros!

Por muitos milhões que se gastem no combate, este é sempre desigual, a favor do fogo. É preciso garantir que não estamos demasiado focados no combate, mas trazer outros atores que possam ajudar a fortalecer o lado da prevenção.

Os aborígenes, em paisagens naturalmente propensas a incêndios, ateiam os seus fogos antes do aparecimento dos relâmpagos. À medida que os incêndios são mais frequentes, tornam-se mais fáceis de controlar. É isto, temos de voltar a usar o fogo como ferramenta, temos de incrementar o fogo-segundo, adaptado aos nossos tempos. Temos de voltar a ter uma boa relação com o fogo.

As alterações climáticas estão a mudar as projeções e avaliações de risco de incêndio florestal, aumentando-as três a quatro vezes mais, invadindo zonas que, normalmente, não eram afetadas. O problema é que as pessoas têm dificuldade em aceitar, em acreditar, e o grande desafio é fazer acreditar e mobilizar as populações para as medidas preventivas que devem ser adoptadas. Precisamos de investir mais na prevenção e incluir e usar o conhecimento das populações.

Stephen Pyne refere quatro categorias de estratégias para se viver com o fogo: (i) deixar o fogo a cargo da natureza, (ii) substituir o fogo selvagem por fogo controlado, (iii) alterar o caráter do ambiente do fogo e (iv) excluir o fogo. Todas elas corretas e, muitas vezes, em conjunto, em diferentes proporções.

Um dos paradoxos referidos por Pyne é o facto de "à medida que queimamos combustível fóssil, temos de fazer arder paisagens vivas. Temos um défice de fogo. Precisamos de tornar os aceiros mais resistentes face ao que se aproxima - e o fogo pode ser a forma mais segura de o conseguir."

Como diz Pyne, "o fogo é a síntese do contexto", e Tiago M. Oliveira (Presidente do Conselho Diretivo da Agência para a Gestão Integrada do Fogo Rural), no prefácio de Piroceno, "só conseguimos mudar a magnitude com que ele se expressa, se alterarmos antecipadamente o seu contexto, isto é, a vegetação suscetível de arder.".

(Tiago M. Oliveira referiu na apresentação de Piroceno, em 13.05.2023, que, deste facto, ainda não conseguiu convencer o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Espero que não se convença tarde demais)

Paradoxalmente, precisamos de mais fogo para termos menos incêndios.

Referência bibliográfica: Stephen J. Pyne, Piroceno, Livros Zigurate, 2023

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Retenção dos alunos - sim ou não?

A retenção dos alunos no ano de escolaridade que frequentam é um tema sempre atual e que divide opiniões.

(chumbar, reprovar, reter, por esta ordem, foram os termos empregues no antigamente, e que foram, sucessivamente, suavizados)

Reter pressupõe uma situação transitória, uma permanência no mesmo ano, a fim de dar ao aluno oportunidade de, em mais tempo, atingir as aprendizagens mínimas, definidas para cada ano de escolaridade.

Ligada à retenção está a escolaridade obrigatória, que foi evoluindo da quarta classe (hoje 4º ano de escolaridade), depois 9º ano (ensino básico) e, atualmente, 12º ano (ensino secundário). Pressupõe-se, assim, que todos os alunos terão capacidades cognitivas para atingir as aprendizagens essenciais para cada nível de ensino, embora com diferentes níveis de consecução.

Excetuando no final de cada ciclo (4º, 6º, 9º e 12º anos), a retenção só se poderá verificar a título excecional, ou seja, na prática, quase nunca (ou nunca), e mesmo no final de ciclo a retenção continua a ser excecional. Claro que, se corresponder a uma avaliação devidamente ponderada e verdadeira do desempenho dos alunos, como acontecerá na esmagadora maioria dos casos, ainda bem.

Mas os professores sentem uma pressão latente do sistema,

(que se sente no ar que se respira nas escolas, uma pressão do Ministério da Educação, de algumas direções das escolas, mas que dependerá, também, da perceção de cada um)

uma pressão para os alunos não serem retidos, podendo, assim, gerar um sucesso escolar tão fictício quanto deixe de corresponder à avaliação das reais aprendizagens adquiridas.

A retenção trará benefícios para o desenvolvimento educativo dos alunos, valoriza o rigor, a exigência, o esforço. Premeia os que se dedicam e motivam o sucesso educativo, a resiliência e a capacitação para transpor obstáculos futuros. Isto, para os que serão a favor das retenções.

Reter alunos será uma medida punitiva que poderá até, por vezes, promover a punição familiar, muitas vezes desproporcionada. Pode, em si mesma, consubstanciar injustiças, considerando a existência de critérios e instrumentos de avaliação diferentes de escola para escola. Pode, ainda, ignorar fragilidades do próprio sistema educativo (desde o pré-escolar) e a existência de ambientes (escolares e/ou familiares) pouco propícios à aprendizagem, por que o aluno foi passando ao longo do seu percurso escolar. Isto, para os que serão contra a retenção.

Todos terão alguma razão e os argumentos de uns não excluem, necessariamente, todos os dos outros.

Tal como o Professor Domingos Fernandes e muito colegas com que me cruzei durante mais de 40 anos, acredito, sem hesitar, que todos os alunos têm capacidades para aprender. Todos terão capacidades para adquirir as aprendizagens essenciais consideradas mínimas para a transição de ano de escolaridade. Necessitarão, com certeza, de um nível diferenciado de apoio para isso acontecer. Uns terão um nível de consecução de objetivos superior, outros inferior, consoante as suas capacidades cognitivas, o seu empenho e o seu ambiente social e familiar.

Aqui chegados, como conseguir que, ao seu nível, todos tenham o seu sucesso educativo, que lhes permita ser útil na sociedade, seguir as suas vidas de acordo com as suas legítimas aspirações?

(entenda-se que não tenho, obviamente, a pretensão de ser inovador mas tão só de refletir sobre esta matéria (e partilhar convosco), usando experiências, leituras e aprendizagens que fui obtendo ao longo da minha vida profissional, com muita colaboração de colegas professores e alunos. Algumas escolas, nos limites da legislação, já dão prática a algumas destas reflexões.)

Para isso, a Escola precisa de mais recursos, ou precisa de os otimizar e/ou rentabilizar. Como referimos, os alunos têm necessidades de apoio diferenciadas. Todos os professores, nas suas turmas, são confrontados com essas diferenças e todos dias ouvem dizer que o ensino terá de atender a cada um, tendo em conta as suas diferenças. Fácil dizer! Difícil (ou impossível) de concretizar com 30, ou mesmo 25 alunos na turma!

Com um horário que incluísse um ou dois tempos letivos

(disse letivos, estas atividades de apoio são, de facto, letivas)

para apoio aos seus alunos com mais dificuldades, seria possível aos docentes fazer essa diferenciação. Um ou dois tempos letivos, consoante a carga horária de cada disciplina, podendo também as mesmas horas serem afetas a mais de uma turma, até um número limite (reduzido) de alunos.

(com a possibilidade de algumas destas horas se realizarem à distância, ao critério da direção da escola)

Assim, teríamos alunos que, para o mesmo currículo, frequentariam 3 ou 4 tempos, por exemplo, para a mesma disciplina, consoante as suas necessidades. Esses tempos teriam de ser obrigatórios para os alunos indicados, podendo ser frequentados apenas em parte do ano letivo.

O envolvimento dos pais e encarregados de educação seria essencial,

(a contratualização com os pais poderá resultar num maior compromisso, maior co-responsabilização dos pais pelo plano de apoio. Sabemos das dificuldades de envolver as famílias, até porque há famílias e "famílias" que não existem. Nenhuma medida terá 100% de êxito e depois, será mais um papel, mas talvez este valha a pena, em substituição de muitos outros)

com especial empenho dos diretores de turma na explicitação destes objetivos, que justificariam um acréscimo de horas curriculares (pelo menos, temporariamente), mas também da importante e imprescindível colaboração em ambiente familiar.

(afinal, quando temos mais dificuldades, temos de trabalhar mais para obter os mesmos resultados, e esta será a cultura do esforço a incutir nos alunos)

A Escola inclusiva não tem de ser facilitista! A Escola deverá proporcionar a todos as mesmas oportunidades, sem abdicar do rigor, da exigência e da qualidade. Numa Escola com recursos otimizados, a retenção será, naturalmente, excecional, não abdicando de uma avaliação fortemente formativa, mas justa e rigorosa, promotora de um sucesso real, não sendo um meio de exclusão e descriminação.

Retenção dos alunos - sim ou não? Sim, mas depois de esgotados todos os recursos necessários para que tal não aconteça. Recursos que os docentes necessitam para um sério exercício da profissão.

Nada se faz sem a colaboração de todos os agentes educativos - alunos, professores, pais e encarregados de educação, pessoal não docente e autarquias locais, mas precisamos de os estimular, de melhorar as carreiras profissionais, de apostar nas escolas, com mais e melhores recursos humanos e materiais.

Temos excelentes profissionais!

A Escola Pública de qualidade será sempre cara, mas será sempre um investimento!

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